sábado, 30 de janeiro de 2016

Ter filho, ou não

[Traduzo a seguir um artigo da prestigiosa revista The Economist sobre as implicações do surto de zika no mundo, que está fazendo ressurgir as polêmicas sobre controle de natalidade e aborto. Esse debate nos afeta diretamente, por estarmos na liderança mundial dessa doença. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O vírus da zika, transmitido por mosquito, que se espalhou por 22 países e territórios nas Américas, é assustador para mulheres grávidas e seus parceiros. O vírus pode causar problemas de gestação em bebês cujas mães foram infectadas durante a gravidez. No Brasil, mais de 4.000 nasceram com cabeças anormalmente pequenas [microcefalia] desde outubro, comparados com uma taxa de menos de 200 em um ano típico. A resposta de vários governos deflagrou um debate sobre aborto, controle de natalidade e educação sexual que pode durar mais que o próprio surto.

Isso começou depois que vários governos aconselharam às mulheres que adiassem a intenção de engravidar. A Colômbia, que tem o segundo maior número de infectados depois do Brasil, aconselhou às mulheres que esperassem de seis a oito meses. A Jamaica emitiu uma recomendação semelhante, mesmo não tendo ainda registrado casos da doença. O governo de El Salvador recomendou que as mulheres adiassem a gravidez até 2018. O Panamá recomendou às mulheres de comunidades indígenas, nas quais a taxa de infecção é alta, que não engravidem.

Algumas mulheres acham essa recomendação um tanto autoritária. Outras dizem que os governos têm feito pouco para ajudar as mulheres a controlar sua fertilidade. Paula Avila-Guillen, do Centro de Direitos de Reprodução, um grupo lobista em Nova Iorque, registra que as taxas de violência sexual e de gravidez de adolescentes na América Latina estão entre as mais altas do mundo. O Instituto Guttmacher, uma usina de ideias (think tank), verificou que 56% dos casos na América Latina e no Caribe a gravidez não é intencional.

As taxas de gravidez acidental são elevadas porque a educação sexual é inadequada, e controle de natalidade é difícil de conseguir. Funcionários da área de saúde relutam em prescrever contraceptivos para adolescentes ou para mulheres que ainda não tiveram filhos. Se é para as mulheres evitar a gravidez, dizem ativistas  dos direitos da mulher, os governos têm que informá-las melhor e providenciar mais acesso à contracepção, tanto para homens como para mulheres.

Algumas pessoas argumentam que a crise de zika poderá fazer com que países liberalizem as políticas que restringem severamente o aborto. Em El Salvador, que não permite o aborto mesmo que a vida de uma mulher esteja sob risco, ativistas estão aumentando sua campanha para uma mudança na lei. Um editorial na Folha de S. Paulo, um jornal brasileiro, argumentou que o Brasil deveria abolir sua proibição na maioria dos abortos.

Em vez de recomendar às mulheres que adiem a gravidez, o Brasil está sensatamente concentrando seus esforços no real responsável pelo problema, o mosquito Aedes aegypti, que transmite também dengue e febre amarela [o texto omitiu a chikungunya]. O país havia eliminado a ameaça em 1958, mas baixou a guarda e permitiu seu retorno. Este mês o ministro da Saúde, Marcelo Castro, anunciou que um repelente ao inseto será distribuído a 400.000 grávidas cadastradas no Bolsa Família, um programa federal de ajuda financeira. Cerca de 310.000 funcionários da área de saúde estão ampliando o alerta contra o mosquito, e ensinando à população como evitar seu aparecimento; em 13 de fevereiro, 220.000 soldados se juntarão a eles. 

Seguindo diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil ensina às mulheres grávidas ou na expectativa de uma gravidez como evitar serem picadas pelo mosquito. As mulheres precisam de fatos, não de metas de fertilidade.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A arte polêmica de Bosch

[Para esta postagem utilizei como referências o livro "Bosch - A Obra de Pintura" (Walter Bosing, Ed. Taschen, 2010) e o artigo "Bosch, revolutionary and master", de Nina Siegal (International New York Times, 11/11/2015). Clicar nas imagens para ampliá-las.]


Bosch, auto-retrato (?) - Provavelmente cópia de um original desaparecido. Lápis e sanguina, 41 x 28 cm. Arras (França), Bibliothèque Municipal d'Arras - (Foto: Google)

Em agosto deste ano completam-se 500 anos da morte de Jeroen van Aeken, pintor e gravador holandês mais conhecido como Hieronymous Bosch, pseudônimo que adotou com base em 's-Hertogenbosch (Bois-le-Duc), local de onde tirou seu pseudônimo, bonita cidade holandesa perto da atual fronteira com a Bélgica. 

Nos tempos de Bosch, 's-Hertogenbosch era uma das quatro maiores cidades do ducado do Brabante, que pertencia aos vastos territórios dos ambiciosos duques de Borgonha. Nos fins da Idade Média, ela era uma cidade comercial próspera, centro de um grande território de camponeses que mantinha intensas relações comerciais tanto com a Europa setentrional, como com a Itália. Embora fosse um centro importante de indústria têxtil, a cidade era famosa principalmente pelos seus construtores de órgãos e sinos. 

A população, na sua maioria burgueso-comerciante, deve ter marcado fortemente o caráter da cidade pois em 's-Hertogenbosch não existia, como em Bruxelas ou Mecheln, uma corte de príncipes; ela também não era uma cidade universitária como Lovaina, nem uma diocese como as outras cidades importantes do Brabante. Contudo, sua vida cultural era bastante animada.

Supõe-se que a vida religiosa também era extremamente intensa: numerosos conventos e mosteiros situavam-se tanto na cidade, como em seus arredores. O grande número de conventos e sua concorrência econômica parecem ter criado uma certa hostilidade entre os cidadãos e as ordens, e isso refletiu-se também na arte de Bosch. 

Ao contrário de Albrecht Dürer, Bosch não deixou cartas ou diários. As poucas informações que existem sobre  sua vida e sua atividade podem ser encontradas no arquivo da cidade de 's-Hertongenbosch, principalmente nos livros de contas da Confraria de Nossa Senhora. Esses documentos não nos dizem nada sobre sua pessoa, nem sequer aí consta sua data de nascimento. Um retrato do artista, possivelmente um auto-retrato, apenas conhecido através de suas cópias posteriores, nos mostra Bosch numa idade já bastante avançada (ver foto acima). Partindo do princípio de que o quadro foi pintado pouco antes de sua morte, em 1516, podemos fixar seu nascimento em 1450. Fala-se nele pela primeira vez em 1474, aparecendo seu nome juntamente com os dos seus dois irmãos e de sua irmã. Um desses irmãos, Goossen, também era pintor. Em data desconhecida, entre 1479 e 1481, Bosch casou-se com Aleyt Goyaerts van der Meervenne, segundo consta alguns anos mais velha que ele -- pertencia a uma boa família e possuía fortuna própria.

Cerca de 1486-87, o nome Bosch aparece pela primeira vez no registro da Confraria de Nossa Senhora, com a qual manteve estreitos contatos pelo resto de sua vida. O pai de Bosch, Anthonius van Aken, parece ter sido uma espécie de consultor artístico da confraria. Em 1475-76, ele e seus filhos participaram da resolução do conselho da confraria de encomendar o grande altar em talha para a sua capela, concluído em 1477. É possível que Hieronymous Bosch tenha sido um dos filhos de Anthonius que participaram nessas negociações, mas sem ser contudo individualizado. 

A partir de 1480-81, Bosch começa a receber encomendas de trabalhos frequentes da confraria. Entre eles contam-se vários projetos, como por exemplo em 1493-94 de um vitral para a decoração da nova capela, em 1511-12 para um crucifixo, em 1512-13 pra um candelabro. A pequena importância que lhe foi paga pela encomenda do candelabro sugere que se tratava principalmente de um gesto de beneficência para com a confraria. 

Não existem documentos comprobatórios de que Bosch tenha alguma vez  saído de sua cidade natal. No entanto, pode-se concluir por certos aspectos de suas primeiras obras que passou algum tempo em Utrecht, havendo uma influência evidente da arte flamenga no seu estilo maduro, que sugere também a sua visita ao sul dos Países Baixos (Holanda). Pensa-se que Bosch pintou sua Crucificação de Santa Júlia durante uma viagem pelo norte da Itália, onde o culto dessa santa era muito difundido. É, no entanto, mais provável que o trabalho tenha sido encomendado nos Países Baixos, por comerciantes ou diplomatas italianos aí residentes como aconteceu, por exemplo, com o tríptico de Portinari (Glorença, Galleria dei Uffizi) de Hugo van der Goes. 

A última referência ao pintor nos documentos da Confraria de Nossa Senhora data de 1516, e diz respeito à sua morte; no dia 9 de agosto desse ano foi celebrada missa por sua alma na Igreja de São João. 

Se pouco se sabe sobre a vida de Bosch, menos ainda se conhece de sua origem artística. É comumente aceito que aprendeu o ofício com o pai ou com o tio, mas todas as pinturas destes se perderam.Contudo, pode-se lançar alguma luz na  origem estilística das primeiras obras de Bosch considerando-as no contexto da pintura flamenga do século XV. Quando dos primeiros trabalhos de Bosch os primeiros grandes mestres da escola flamenga, Jan van Eyck e Robert Campin, já tinham morrido há trinta anos. Roger van der Weyden havia igualmente falecido, mas deixou sucessores que, em Bruxelas, asseguravam uma relativa continuidade do seu estilo frio e reservado. Dieric Bouts, em Lovaina, e Hans Memling, em Bruges, foram também influenciados por Roger van der Weyden que, naquela altura, já se aproximava do fim de sua carreira. Com as composições vigorosas de Hugo van der Goes, surgiu um estilo muito pessoal, apesar de baseado nos fundamentos dessa escola. 

No tempo de Bosch, as províncias nortenhas dos Países Baixos não eram tão ricas nem politicamente tão importantes como Brabante e Flandres, havendo aí um menor número menor de mecenas do que nas cidades do sul. Mas, certo é que em Haarlem, sob a direção de Geertgen tot Sint Jans e de seus sucessores, existia uma escola de pintura consideravelmente importante, enquanto em Delft, nas duas últimas décadas do século XV, trabalhava o mestre anônimo da Virgo inter Virgines. Embora apenas se conheçam poucos painéis feitos em Utrecht, pensa-se que essa cidade antiga, diocese desde 696, era um centro importante de elaboração de iluminuras. 

Como 's-Hertogenbosch pertencia ao Brabante, e como a Igreja de São João é, indubitavelmente, um ponto alto do gótico dessa região, muitos autores procuraram a origem da arte de Bosch nas tradições criadas por Robert Campin, Roger van der Weyden e outros artistas que trabalhavam no sul dos Países Baixos. De fato, as últimas obras de Bosch deixam transparecer muitas ligações com a arte do Brabante e do sul, mas as suas primeiras obras estão mais próximas da arte holandesa, particularmente a das iluminuras. Entre as obras geralmente aceitas como pertencentes ao primeiro período criativo de Bosch, entre 1470 e 1485, encontram-se várias pequenas cenas bíblicas: a Adoração dos Magos (hoje na Filadélfia, EUA), o Ecce Homo (em Frankfurt) e uma ala de altar em Viena (Áustria) -- Cruz às Costas. A estruturação relativamente simples desses trabalhos e a sua visível dependência dos esquemas de composição levam-nos a concluir que foram executados bastante cedo. 



O Homem-Árvore -- pena e bistre, 27,7 x 21,1 cm. Viena (Áustria), Graphische Sammlung Albertina - (Foto: Google)

Cabeça de Mulher (Fragmento) -- óleo sobre madeira, 13 x 5 cm - Roterdã (Holanda), Museum Boymans-van Beuningen - (Foto: Google)

Duas Cabeças de Homem -- óleo sobre madeira, 14,5 x 12 cm - Roterdã (Holanda), Mueum Boymans-van Beuningen - (Foto: Google)

Duas Cabeças (caricaturas) -- pena e bistre, 13,3 x 10 cm - Nova Iorque, Coleção Lehmann

A Adoração dos Magos (Epifania) -- óleo sobre madeira, 74 x 54 cm - Filadélfia (EUA), Philadelphia Museum of Art, Coleção John G. Johnson - (Foto: Google)


A Adoração dos Reis Magos (tríptico) -- Painel central: A Adoração dos Magos - óleo sobre madeira, 138 x 72 cm --Painel esquerdo: O Doador com São Pedro e São José - óleo sobre madeira, 138 x 33 cm -- Painel direito: A Doadora com Santa Inês e Pastores - óleo sobre madeira, 138 x 33 cm -- Madri, Museu do Prado --  (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


Ecce Homo (Exibição de Cristo perante o Povo) -- óleo sobre madeira, 75 x 61 cm - Frankfurt (Alemanha), Städel Museum - (Foto: Google)

Ecce homo (Exibição de Cristo perante o Povo) -- óleo sobre madeira, 52 x 53,9 cm - Filadélfia (EUA), Philadelphia Museum of Art, Coleção John G. Johnson - (Foto: Google)

Cruz às Costas -- óleo sobre madeira, 57,2 x 32 cm - Viena (Áustria), Kunsthistorisches Museum - (Foto: Google)


Cristo carregando a Cruz -- óleo sobre madeira, 76,7 x 83,5 cm - Gante (Bélgica), Musée des Beaux-Arts - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works") - Cristo atormentado é acompanhado por Santa Verônica, uma figura apocalíptica que não é mencionada na Bíblia mas que se diz ter limpado o rosto do Redentor enquanto este lutava com o peso da cruz, tendo o lenço ficado miraculosamente marcado com seu rosto. À volta dos dois concentra-se uma multidão ululante, escarnecendo de sua vítima com olhares vitrificados e esgazeados, com os rostos contorcidos e deformados iluminados por um brilho sobrenatural contra o fundo escuro. Não são homens, mas sim demônios, perfeitas encarnações de todas as luxúrias e paixões que mancharam uma alma humana. Bosch nunca criou figuras humanas de uma fealdade tão repugnante. Nessa acumulação do Mal, as cabeças de Cristo e de Verônica apresentam uma expressão estranhamente calma e distante. De olhos fechados, parecem apreciar uma visão interior sem se preocuparem com a confusão à sua volta, notando-se até nos lábios de Verônica um pequeno sorriso.

O Prestidigitador -- óleo sobre madeira, 53 x 65 cm - Saint-Germain-en-Laye (França), Musée Municicipal - (Foto: Google)

As Bodas de Canaã -- óleo sobre madeira, 93 x 72 cm - Roterdã (Holanda), Museum Boymans-van Beuningen - (Foto: Google)

Os Sete Pecados Mortais e os Quatro Novíssimos do Homem (Tampa de Mesa) -- óleo sobre madeira, 120 x 150 cm - Madri (Espanha), Museu do Prado - (Foto: Google) -- Essa peça exibe uma abordagem pormenorizada do destino da humanidade. As imagens dos pecados dos homens estão dispostas em volta de um círculo, que significa o olho de Deus, de cuja pupila Cristo se ergue do sarcófago mostrando as chagas ao observador. À volta das pupilas estão escritas as palavras "Cave cave deus videt" ("Cuidado, cuidado, o Senhor vê"); mas o que Deus vê reflete-se no círculo exterior. O nome latino de cada um dos pecados está escrito na parte inferior de cada imagem, mas as inscrições são tão supérfluas aqui como no Ecce Homo, de Frankfurt.


Detalhe de "Os Sete Pecados Mortais" - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")

A Extração da Pedra da Loucura -- óleo sobre madeira, 48 x 35 cm - Madri (Espanha), Museu do Prado - (Foto: Google) -- O quadro aborda a ingenuidade humana. No meio de uma paisagem estival exuberante, vê-se um um curandeiro extraindo um objeto da cabeça de um homem preso a uma cadeira, observados ambos por um frade e uma freira. Possivelmente este quadro não foi totalmente pintado por Bosch. As figuras desajeitadas, sem expressão, foram talvez executadas por um ajudante, mas só o próprio Bosch poderia ter pintado a paisagem de fundo, cujas formas sentidas fazem lembrar a paisagem de fundo de A Adoração dos Magos. A imagem desta operação ao ar livre, cuja forma arredondada também nos faz lembrar um espelho, está rodeada por uma moldura de caligrafia bem trabalhada onde se pode ler a inscrição: "Mestre, tira-me depressa esta pedra. O meu nome é Lubbert Das". Naquela altura, a operação para extrair pedras era considerada uma espécie de charlatanismo através do qual o doente, ao ser-lhe extraída a pedra da loucura, ficava curado de sua estupidez. 

A Nave dos Loucos -- óleo sobre madeira, 57,8 x 32,5 cm - Paris, Museu Nacional do Louvre - (Foto: Google) -- Geralmente atribuído ao período intermediário de Bosch, o quadro mostra duas freiras ou beguinas que se divertem com um grupo de camponeses num barco construído de forma estranha: o seu mastro é constituído por uma árvore com folhas, um ramo partido serve de leme, estando sentado no cordame à direita um louco.

Alegoria da Gula  e da Luxúria -- óleo sobre madeira, 35,8 x 32 cm - New Haven (EUA), Yale University Art Gallery, Coleção Rabinowitz, doação de Hanna D. e Louis M. Rabinowitz - (Foto: Google)


A Tentação de Santo Antão -- óleo sobre madeira, 70 x 51 cm - Madri, Museu do Prado - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


A Tentação de Santo Antão (painel central do tríptico) -- óleo sobre madeira, 131,5 x 119 cm - Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga


A Tentação de Santo Antão (detalhe do painel central) - Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


O Voo e a Queda de Santo Antão (detalhe do painel esquerdo do tríptico A Tentação de Santo Antão) -- óleo sobre madeira, 131,5 x 53 cm - Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


A Morte do Avarento -- óleo sobre madeira, 92,6 x 30,8 cm - Washington (EUA), National Gallery of Art - (Foto: Google) - O quadro mostra um homem que, mesmo à beira da morte, oscilando entre o Paraíso e o Inferno, continua insistindo na sua loucura. O moribundo encontra-se deitado num cubículo alto e estreito, estando a Morte já presente no lado esquerdo. O seu anjo da guarda apoia-o e tenta que ele concentre a sua atenção no crucifixo na janela. Porém, os bens terrenos que terá de deixar distraem-no: estende quase automaticamente  a mão para um saco com ouro que um diabo lhe oferece através do cortinado. 

O Juízo Final -- tríptico - Painel à esquerda: Queda do Anjo, Pecado Original e Expulsão do Paraíso -- óleo obre madeira, 167,7 x 60 cm -- Painel central: O Juízo Final -- óleo sobre madeira, 163,7 x 127 cm -- Painel à direita: O Inferno -- óleo sobre madeira, 167 x 60 cm -Viena (Áustria), Gemäldesammlung der Akademie der bildenden Künste

O Juízo Final - detalhe do painel central - (Foto: Google)

A ressureição dos mortos e condenados ao Inferno (Fragmento de um Juízo Final) -- óleo sobre madeira, 60 x114 cm - Munique (Alemanha), Bayerische Staatsgemäldesammlungen, Alte Pinakothek - (Foto: Google)


Homem sendo comido por um monstro (detalhe do quadro acima "O Julgamento Final") - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")




Estudos de Monstros -- pena e bistre - Oxford (Reino Unido), Ashmolean Museum - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


O Jardim das Delícias Terrenas (painel central)-- óleo sobre madeira, 220 x 195 cm - Madri, Museu do Prado - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


O Inferno (detalhe do painel direito do Jardim das Delícias Terrenas) -- óleo sobre madeira, 220 x 97 cm - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


O Inferno (detalhe do painel direito) -- óleo sobre madeira, 220 x 97 cm - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


Monstro com Cabeça de Pássaro (pormenor da parte inferior do painel direito com a representação de O Inferno do Jardim das Delícias Terrenas) - Madri, Museu do Prado - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")

O Vendedor Ambulante -- óleo sobre madeira (diâmetro da moldura: 71,5 cm) - Roterdã, Museum Boymans-van Beuningen - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")

A Crucificação -- óleo sobre madeira, 73,5 x 61,3 cm - Bruxelas, Musées Royaux des Beaux-Arts - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")



Dois Monstros -- pena e bistre, 16,4 x 11,6 cm - Berlim, Staatliche Museen Preußischer Kulturbesitz, Kupferstichkabinett - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")






O Carro do Feno (tríptico) -- óleo sobre madeira - El Escorial (Espanha), Monasterio de San Lorenzo - (Foto: Google)




O Cortejo Triunfal do Carro do Feno (painel central do tríptico "O Carro do Feno") -- óleo sobre madeira, 140 x 100 cm - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


Detalhe do painel central de "O Carro do Feno"- (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")


O Vendedor Ambulante (pintura por trás do tríptico "O Carro do Feno", visível quando o tríptico está fechado) -- óleo sobre madeira, 135 x 90 cm - El Escorial (Espanha), Mosteiro de São Lourenço - (Foto: Site "Hieronymous Bosch - Complete Works")



Há 500 anos atrás, um desrespeitoso artista católico apostólico romano da cidade holandesa de 's-Hertogenbosch revolucionou o tríptico, a peça de altar de três peças tradicionalmente usada para cenas de virgens, querubins e santos.

Em seu tríptico "O Carro do Feno" [ver acima], de 1515, Hieronymous Bosch pintou ao contrário pecadores comuns -- assassinos, prostitutas, charlatães e clérigos errantes -- sendo escoltados rumo ao Inferno por um estranho desfile de demônios com rostos de roedores e seres diabólicos com formato de peixe. Esse trabalho inclui-se entre os mais populares do início da Renascença ainda hoje existentes.

O quadro foi vendido a um rei espanhol em 1570, quando ele reinava naquela parte da Europa, e permaneceu na Espanha desde então. Desde 1914, tem estado em exposição permanente no Museu Nacional do Prado, em Madri, onde é uma das principais atrações.

O quadro desfruta agora de seu primeiro "retorno ao lar" nos Países Baixos em cerca de 450 anos, como resultado de uma inovadora disputa de curadoria entre dois museus holandeses. Ele permanecerá na Holanda por seis meses, inicialmente no Museu Boymans-van Beuningen, em Roterdã, e no ano seguinte [2016]no Museu Noordbrabants na cidade natal de Bosch.

O "Carro do Feno" é a peça principal de "De Bosch a Bruegel: Desvelando a Vida Diária" no Boymans, uma exposição da arte holandesa e flamenga do século 16 que se estenderá até 17 de janeiro, focalizando os aspectos crus e às vezes cômicos da vida diária no final da Idade Média e início da Renascença.

Em fevereiro, o quadro tornar-se-á parte da exposição "Hieronymous Bosch: Visões de Gênio", no museu muito menor Nordbrabant em 's-Hertogenbosch, frequentemente chamada de Den Bosch, que considera Hieronymous seu filho mais famoso. A exposição aqui está sendo apresentada como a maior retrospectiva de Bosch já apresentada, com 20 de suas 25 pinturas a óleo conhecidas, juntamente com 19 desenhos. Uma vez encerrada a exposição, em 8 de maio, todas as obras serão deslocadas para o Prado, que apresentará sua própria grande exposição de Bosch de 31 de maio a 11 de setembro.

De nossa exposição, esta é a pintura mais importante", disse Friso Lammertse, co-curador de "Bosch a Bruegel" diante do tríptico "O Carro do Feno". O quadro tem posição de honra na exposição de 80 obras, que inclui pinturas e trabalhos impressos. Peter van Coelen, co-curador da exposição, acrescentou: "Isto é um ponto de partida tão importante para nós -- algo que nos mostra como tudo começou".

O "Carro do Feno" foi um ponto de inflexão importante na secularização da religião, disse Lammertse. "Trípticos sempre foram peças de altares e sempre para temas religiosos, e no verso você tinha cenas de santos", prosseguiu ele. "Você nunca, nunca teve aí umacena da vida quotidiana. Ele foi o primeiro a fazer isso, o que é realmente uma revolução".

Os planos para a exposição do Boymans começaram a ganhar forma há três anos atrás, disse Lammertse, mas o Museu Noordbrabants já havia começado a trabalhar para obter obras de Bosch para a sua retrospectiva.

Charles de Mooji, diretor do Noordbrabants, desempenhou um papel fundamental para garantir os quadros para a Holanda. Em 2007, autoridade da cidade Den Bosch pediram-lhe para montar uma retrospectiva significativa de Bosch, mas seu pequeno e pouco conhecido museu não possuía em troca um único trabalho de Bosch e, portanto, não tinha poder de negociação.

De Mooji surgiu com um plano para estimular um projeto de pesquisa de larga escala, que incluiria obras de Bosch ao redor do mundo, e convenceu sua municipalidade e organizações filantrópicas a doarem o dinheiro necessário para isso. Em 2010, eles criaram o Projeto Bosch de Pesquisa e Conservação, que ao final levantou e milhões de euros, cerca de US$ 3,3 milhões, de en Bosch, da Fundação Jheronimous Bosch 500, da Fundação Gieskes-Strijbis e da Fundação Getty para estudar, preservar, documentar e restaurar pinturas de Bosch ao redor do mundo.

"Dissemos à municipalidade, quando vocês consideram Bosch como seu filho mais importante", disse de Mooji, "vocês têm de investir em seu legado e na conservação de seu trabalho".

Hoje, considera-se que existam ainda cerca de 25 pinturas autenticadas de Bosch no mundo e 20 desenhos adicionais, embora tais números tendam a variar conforme as mudanças em bolsas de estudo. Justamente na semana passada, o Projeto Bosch de Pesquisa e Conservação anunciou que duas obras do Prado, "Cristo Carregando a Cruz" e "Os Sete Pecados Mortais", provavelmente não foram executadas diretamente por Bosch mas por membros de seu estúdio. Ao mesmo tempo, pesquisas revelaram que outro trabalho, conhecido como "Paisagem do Inferno", que havia sido atribuído ao seu estúdio, é provavelmente um trabalho do próprio Bosch.

Cerca de metade da obra do pintor está na Espanha, onde a família real e outros colecionadores carinhosamente consideram Bosch como um pintor seu desde o século 16, quando reis espanhóis governaram Den Bosch.

As obras-primas de Bosch no Prado, que incluem o "Carro do Feno" e o muito maior e até mais famoso "Jardim das Delícias Terrenas" [ver foto acima], quase nunca se deslocaram do Prado. Hoje, estão envolvidas numa queda de braço entre dois museus espanhóis: o novo Museu das Coleções Reais de Madri pleiteou que o Prado ceda seus dois trípticos de Bosch para seu novo palácio barroco; o Prado se recusou a fazê-lo.

Fora da Espanha, as obras de Bosch estão espalhadas por dois continentes, 10 países, 18 cidades e 20 coleções, de acordo com o projeto de pesquisa. Desde 2010, o projeto conduziu estudos de quadros de Bosch em 20 instituições através do mundo, para explorar aspectos de seus processos e materiais de trabalho e para checar sua autenticidade com tecnologias modernas caras. Ele ajudou também a restaurar dois trípticos seriamente danificados em Veneza, e pagou parcialmente a restauração da obra de Bosch "São Cristóvão", da coleção do Boymans.

Devido a esses esforços, as instituições que participaram e se beneficiaram estiveram muito mais dispostas a emprestar as obras para o Noordbrabants em Den Bosch e também o tríptico "Carro do Feno" para o Boymans. Por seu lado, o Boymans emprestará o "São Cristóvão" e outro Bosch, "O Vendedor Ambulante" [ver foto acima], um fragmento de um tríptico que se perdeu, tanto para Den Bosch quanto para Madri. Desde que adquiriu a obra em 1931, o museu emprestou o quadro apenas uma vez, em 1967, também para o Museu Noordbrabants.

"Quadros a óleo desse período são extremamente frágeis", disse Lammertse. "Quando comecei como um curador há 20 anos atrás, ninguém emprestava essas obras de jeito algum. Mas, com os progressos no controle da umidade e nos transportes, as coisas se tornaram um pouco mais fáceis".

O quadro "O Vendedor Ambulante" pinta um ambulante possivelmente saindo de uma casa de má reputação ou, possivelmente, tendo decidido passar por ali. A figura é marcantemente similar ao viajante representado no lado externo do "Carro do Feno" quando o tríptico é fechado, mostrando o quadro "Caminho da Vida". Ele representa um ambulante vestido de maneira praticamente idêntica, forçado a escolher entre o caminho estreito e virtuoso à sua frente ou os caminhos mais amplos dos vários pecadores por trás dele.

"O Vendedor Ambulante" participará de todas as exposições, e os visitantes dos três museus terão a oportunidade de vê-lo no mesmo espaço. e, pela primeira vez desde os anos 1960, haverá muito mais quadros de Bosch para comparar e contrastar, tanto na Holanda quanto na Espanha.

"Chamamos isso de a colheita de nove anos", disse de Mooji, do Noordbrabants. "É lindo, porque faz com que se sinta como se essas obras estejam de volta ao local de onde se originaram".










quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Um astronauta da Estação Espacial Internacional mostra a primeira flor cultivada no espaço

[Traduzo a seguir artigo publicado no site francês L 'Internaute. ]

Foto da zínia cultivada no espaço, feita pelo astronauta Scott Kelly a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa) em 17 de janeiro de 2016 - (Foto: Handout/afp.com)

Uma zínia cultivada na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa) floresceu, dando nascimento à primeira flor do espaço, escreveu no Twitter o astronauta americano Scott Kelly. 

"Debutou a primeira flor cultivada no espaço", escreveu ele em um tweet (@StationCDRKelly) seguido de  #SpaceFlower #zinnia #YearInSpace com a foto de uma bela zínia laranja. 

A zínia cresce muito facilmente na Terra, e floresce abundantemente no verão. Mas essa planta, levada no posto avançado orbital para a realização de experiências, teve aparentemente dificuldades para se adaptar à microgravidade. 

Várias dessas zínias pareciam em mau estado em dezembro, após o aparecimento de mofo em suas folhas devido à forte umidade, segundo a Nasa. Mas elas parecem se recompor, graças aos cuidados de Scott Kelly. 

O cultivo dessas flores faz parte de um projeto mais amplo da Nasa, denominado "Veggie", visando a fazer crescer plantas no espaço para propiciar a nutrição de astronautas na perspectiva de longas missões a Marte, uma autonomia que seria um complemento importante para a sobrevivência dos astronautas, explica a agência espacial. 

Os membros da tripulação da ISS já fizeram com sucesso a colheita de alfaces, das quais consumiram as primeiras folhas em 2015 e esperam produzir ali tomates no ano que vem. 

O sistema de produção de alface e de outros vegetais foi instalado na Estação em meados de 2014. Essas plantas são cultivadas por hidroponia, isto é sem terra numa solução de água e de nutrientes. Tal sistema exige claramente menos água e menos adubo, e as plantas crescem três vezes mais rápido do que no solo, de acordo com a Nasa. 

Imagem fornecida pela Nasa em 22 de dezembro de 2016 mostra o comandante americano da expedição 46, Scott Kelly, quando de uma saída na véspera fora da estação espacial

Gioia Massa, responsável científico pelo projeto "Veggie", explicou que as plantas cultivadas até agora no espaço não são perfeitas, mas têm permitido aos pesquisadores na Terra compreender melhor como os vegetais crescem na microgravidade.

Scott Kelly tornou-se em outubro passado o americano que passou mais tempo continuamente no espaço, ou seja mais de 10 meses a bordo da ISS onde deverá permanecer o total de um ano, até 3 de março de 2016.

Astronauta Scott Kelly - (Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP/Arquivos)

Normalmente, as tripulações da ISS, formadas por seis astronautas, se revezam todas após cinco ou seis meses para assegurar uma presença contínua no posto avançado orbital. 

Scott Kelly realiza essa missão de um ano na ISS com seu colega cosmonauta russo Mikhaïl Kornienko para estudar os efeitos biológicos e psicológicos de longas permanências no espaço, em preparação de voos tripulados para Marte no horizonte dos anos 2030, no mais cedo previsto.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O líder do Estado Islâmico avisa Israel: estamos cada dia mais perto

[Traduzo a seguir a reportagem publicada no final de dezembro passado pelo jornal israelense Haaretz. A retórica do líder radical islâmico é a mesma de sempre dessa ala extremista do islamismo.]

Foto tirada de um vídeo mostra o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, dando um sermão em uma mesquita no Iraque em 05/7/2014 - (Foto: AP)

O comandante do Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Baghdadi, divulgou uma mensagem de voz em 26/12/2015 em que ameaça Israel com um ataque por militantes do EI.

"Com a ajuda de Alá, estamos chegando mais perto de vocês a cada dia", disse ele a seus ouvintes israelenses. "Os israelenses nos verão em breve na Palestina. Esta não é mais uma guerra das cruzadas contra nós. Exatamente agora, o mundo inteiro nos combate". 

O líder do EI prosseguiu: "Os israelenses acharam que havíamos nos esquecido da Palestina e que haviam nos desviado dela. Isso não é verdade. Nem por um momento nos esquecemos da Palestina". 

A mensagem, de 20 minutos de duração, foi a primeira de seu gênero feita por Baghdadi em sete meses. Inicialmente não ficou claro quando al-Baghdadi foi gravado, ou porque decidiu se dirigir a Israel especificamente. 

A julgar por seus comentários, entretanto, ele aparentemente gravou a mensagem em algum momento após a Rússia ter começado seus ataques aéreos contra o EI e outros grupos que lutam contra Bashar Assad na Síria.

Os ataques intensificados feitos pelos russos e pela coalizão liderada pelos EUA não lograram enfraquecer seu grupo, segundo Baghdadi. "Confie em que Deus garantirá a vitória para aqueles que o adoram, e ouça as boas notícias de que nosso Estado está se desempenhando bem", disse o líder. "Quanto mais intensa a guerra contra ele, mais puro ele ele se torna e mais resistente e duro ele fica".


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Os segredos de Stonehenge começam a aflorar

[Para esta postagem utilizei como referências uma reportagem de Kenneth Chang do International New York Times, a Wikipédia e outras fontes da internet.]

Descobertas na década passada trouxeram mais revelações sobre o povo para o qual Stonehenge e monumentos vizinhos tinham grande significado - (Foto: Adam Stanford/Aerial-Cam)

Stonehenge (do inglês arcaico "stone" = pedra, e "henge" = eixo) é um alinhamento megalítico da Idade do Bronze, localizado na planície de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra. Constituí-se no mais visitado e conhecido círculo de pedras britânico, e até hoje é incerta a origem da sua construção, bem como da sua função, mas acredita-se que era usado para estudos astronômicos, mágicos ou religiosos. 
O Stonehenge é uma estrutura composta, formada por círculos concêntricos de pedras que chegam a ter cinco metros de altura e a pesar quase cinquenta toneladas, onde se identificam três distintos períodos construtivos:
  • O chamado Período I (c. 3100 a.C.), quando o monumento não passava de uma simples vala circular com 97,54 metros de diâmetro, dispondo de uma única entrada. Internamente erguia-se um banco de pedras e um santuário de madeira. Cinquenta e seis furos externos ao seu perímetro continham restos humanos cremados. O círculo estava alinhado com o pôr do Sol do último dia do Inverno, e com as fases da Lua.
  • Durante o chamado Período II (c. 2150 a.C.) deu-se a realocação do santuário de madeira, a construção de dois círculos de pedras azuis (coloridas com um matiz azulado), o alargamento da entrada, a construção de uma avenida de entrada marcada por valas paralelas alinhadas com o Sol nascente do primeiro dia do Verão, e a construção do círculo externo, com 35 pedras que pesavam toneladas. As altas pedras azuis, que pesam quatro toneladas, foram transportadas das montanhas de Gales a cerca de 24 quilômetros ao Norte.
  • No chamado Período III (c. 2075 a.C.), as pedras azuis foram derrubadas e as pedras de grandes dimensões (megálitos) - ainda no local - foram erguidas. Estas pedras, medindo em média 5,49 metros de altura e pesando cerca de 25 toneladas cada, foram transportadas do Norte por 19 quilômetros. Entre 1500 a.C. e 1100 a.C., aproximadamente sessenta das pedras azuis foram restauradas e erguidas em um círculo interno, com outras dezenove, colocadas em forma ferradura, também dentro do círculo.
Estima-se que essas três fases da construção requereram mais de trinta milhões de horas de trabalho.
O mais famoso monumento da pré-história pode ter sido um centro de cura, para onde iam peregrinos há mais de 4.500 anos. A afirmação é de um grupo de arqueólogos que trabalha nas primeiras escavações em mais de 40 anos no monumento. O grupo acredita ter encontrado indícios que podem, finalmente, explicar os mistérios da construção de blocos de pedra. A equipe descobriu um encaixe que, no passado, abrigou as chamadas pedras azuis, rochas vulcânicas de tom azulado, a maioria já desaparecida, que formava a primeira estrutura construída no monumento. Eles acreditam que as pedras azuis podem confirmar a tese de que Stonehenge era um local onde as pessoas iam em busca de cura.
Segundo a citada reportagem do International NYT, há cerca de 6.300 anos atrás, uma árvore caiu nessa região do sul da Inglaterra. Para os habitantes locais, isso criou uma oportunidade imobiliária excepcional: próximo de uma fonte e perto de áreas de caça atraentes. 
Segundo David Jacques, um arqueólogo da Universidade de Buckingham, lama foi comprimida sobre as raízes expostas, transformando-as em um muro. Ao lado, um poste foi enfiado no solo e isto pode ter sustentado um teto de grama ou de pele de animal. Isso foi, disse ele, uma casa, uma das primeiras da Inglaterra.
Em outubro, nas escavações mais recentes em um local conhecido como Blick Mead, o Dr. Jacques e sua equipe cavaram uma vala de 12,2 m de extensão (40 pés), 7 m (23 pés) de largura e 1,5 m (5 pés) de profundidade, examinando aquela estrutura e seus arredores. Encontraram uma lareira com pedaços de quartzo fragmentado a fogo, pedaços de ossos, partículas de quartzo usado como pontas de setas e como ferramentas de corte e uns tipos de vagens que podem ter sido usadas como pigmentos. "Há algo aqui", disse o arqueólogo, imaginando o que acontecia em 4300 a.C. "Havia gente aqui fazendo coisas. Exatamente como nós. As mesmas pessoas e as mesmas preocupações". 
A apinhada vizinhança de Stonehenge -- Pesquisadores usando imagens aéreas, radar de penetração no solo e outras técnicas estão descobrindo novos detalhes na paisagem ao redor de Stonehenge. Na sequência  de fotos acima (ver na reportagem), a partir do topo e no sentido horário:  Blick Mead - Em outubro, pesquisadores escavaram a área no entorno de um abrigo construído ao redor de uma árvore caída, construído cerca de 4.300 a.C.. A casa se antecipa a Stonehenge em mais de 1.000 anos, mas sugere que houve progressão dos primeiros britânicos, caçadores, para os fazendeiros que construíram Stonehenge e os monumentos ao seu redor. -- West Amesbury Henge - Está ligado a Stonehenge por um caminho ou trilha de procissão. As pessoas na foto estão em pé em áreas escavadas na rocha. O local é conhecido também como Bluestonehenge, e alguns pesquisadores consideram que as pedras que faltam foram deslocadas para Stonehenge por volta de 2.400 a.C.. -- Durrington Walls - É um vilarejo neolítico rodeado de aterros, e datado entre 3.500 e 2.400 a.C..Imagens de radar mostram uma fila de pedras enterradas em pé. -- Woodhenge - Houve uma época em que este local concentrou anéis concêntricos de postes de madeira. -- Stonehenge - Foi construído em múltiplos estágios, evoluindo de um anel de terra de cerca de 3.000 a.C. para um elaborado círculo de pedras da Idade do Bronze erigido e rearrumado a partir de 2.600-1.600 a.C.. --(Fonte: International New York Times)
Entre os artefatos encontrados em Blick Mead havia uma grande quantidade de pontas de setas/lanças e ferramentas de corte feitas de quartzo - (Foto: Andrew Testa/The New York Times) 

Blocos de concreto marcam os locais onde existiam estacas de  madeira em Woodhenge - (Foto: Andrew Testa/The New York Times)
A cerca de 1,6 km (1 milha) de distância está Stonehenge. Para o Dr. Jacques, a casa faz parte da história de Stonehenge, mesmo que os ocupantes de Blick Mead jamais tenham presenciado a montagem daquelas pedras maciças. Os inícios de Stonehenge estariam a mais de um milênio no futuro. Mas Blick Mead, disse ele, ajuda a preencher o vazio de caçadores que se tornaram fazendeiros e depois construíram Stonehenge e outros monumentos pré-históricos que marcam a paisagem rural inglesa. "Este é o primeiro capítulo desconhecido de Stonehenge", disse o Dr. Jacques.
Stonehenge tem cativado gerações. Ao longo dos anos, arqueólogos têm catalogado as rochas, tentado adivinhar o significado da maneira como foram colocadas -- alinhadas para o nascer do sol em meados do verão e para o pôr do sol em meados do inverno -- e estudado os ossos humanos e de animais ali enterrados. 

O sol do solstício de inverno sobre Stonehenge - (Foto: Simon Wakefield)
Há tempos, eles conhecem também outros monumentos locais -- câmaras mortuárias, uma colina de 39,5 m de altura (130 pés) de giz (calcáreo) conhecido como Silbury Hill e muitas outras estruturas circulares. Um levantamento aéreo em 1925 revelou círculos de peças de madeira, agora conhecidos como Woodhenge, a 3,2 km de Stonehenge. 
Próximo a Avebury há um outro monumento imenso: uma colina artificial construída com calcáreo (giz), conhecida como Silbury Hill. Essa colina de 39,5 m de altura tem aproximadamente a mesma altura e o mesmo volume que uma das pirâmides de tamanho médio do Egito. Arqueólogos não encontraram sinal de tumba em seu interior e permanecem intrigados quanto ao motivo pelo qual foi construída - (Foto: Google) 

"O monumento de pedra é um ícone", disse Wolfgang Neubauer, o diretor do Instituto Ludwig Boltzmann para Prospecção Arqueológica e Arqueologia Virtual em Viena. "Mas é apenas uma pequena parte da coisa toda". 

Um desfile de monumentos
A história da Bretanha começa no final da última idade do gelo. No frio, a Bretanha ficava despovoada. Com tanta água do oceano congelada nos glaciares, o nível do mar era mais baixo e a Bretanha estava  ligada ao resto da Europa. Com o aquecimento global, os habitantes recuaram até que as águas  crescentes destruíram a ponte de terra. 
Por volta de 3.800 a.C. surgiram os primeiros grandes monumentos -- montes retangulares, conhecidos como túmulos longos, que serviam como câmaras mortuárias. 
Por volta de 3.500 a.C., foi cavada uma vala de 3,2 km de extensão e 91,4 m de largura próximo ao local de Stonehenge no que ficou conhecido como Stonehenge Cursus ("cursus" é a palavra latina para pista de corrida ou hipódromo -- quem a descobriu no século 18 achou que se tratava de uma pista desse gênero construída pelos romanos).  O primeiro estágio de Stonehenge propriamente, uma vala circular para fundação, foi escavada por volta de 2.900 a.C. e ali se erigiram anéis de madeira. 
Cerca de 400 anos mais tarde veio um apogeu de henges (estruturas circulares). -- A característica determinante de um henge não é a presença de estacas de pedra ou madeira apontadas para cima, mas uma vala circular rodeada por uma margem elevada. Sob este aspecto, Stonehenge hoje não é um henge autêntico: sua margem elevada está dentro da vala --.
32 km ao norte de Stonehenge situa-se Averbury, com três círculos de pedras, o mais externo deles com mais de 304 m de diâmetro -- é tão grande, que a cidade de Averbury avançou para dentro dele. No centro há um pub, o Red Lion, fundado há quatro séculos. Mais próxima de Stonehenge está Durrington Walls, uma  estrutura circular de terra de cerca de 488 m de diâmetro.  
 Um dos círculos de pedra de Averbury - (Foto: Google)
Michael Parker Pearson, da Universidade College London, escavou casas em Durrington Walls e ao longo do vizinho rio Avon e considera que esse é o local onde viveram os construtores para o maior estágio da construção de Stonehenge, que começou por volta de 2.600 a.C.. As pedras gigantescas, algumas pesando 40 toneladas, foram transportadas e entalhadas. Pearson acredita que pedras menores de arenito cinzento, de cerca de 2 toneladas cada, tenham sido levadas para Stonehenge das montanhas Preseli em Gales e depois outras maiores foram arrastadas para lá.
Como os britânicos antigos não tinham linguagem escrita, a pergunta mais simples -- por que isso foi construído? -- permanece sem resposta conclusiva. 
Na opinião do Dr. Pearson, Durrington Walls era a terra dos seres vivos, simbolizada pelas madeiras de Woodhenge, enquanto Stonehenge era a terra dos mortos. Ele acredita que os britânicos primitivos se reuniam em Durrington Walls para festejar, e depois se dirigiam para Stonehenge para honrar seus ancestrais.
Em outubro, na revista Antiquity (Antiguidade), o Dr. Pearson e seus colegas descreveram resíduos de ácido gorduroso que identificaram dentro de vasilhames para cozinhar. "Identificamos o cardápio: carne e porco, cozidos e grelhados, com um punhado de maçãs, frutas vermelhas e avelãs. Eles comiam basicamente uma dieta muito forte em carne". 
As pessoas vinham de pontos próximos e remotos para as festividades, disse o Dr. Pearson. Ele mencionou que a análise de dentes de gado mostrou diferentes isótopos do elemento estrôncio, que variam com base nos minerais locais existentes na água, indicando que os animais haviam sido criados em outro lugar e então levados para Durrington Walls. 
Timothy Darvill, da Universidade de Bournemouth, que liderou uma pequena escavação em Stonehenge em 2008, tem uma opinião diferente sobre o significado do monumento, apontando para as pedras de arenito cinzento que, segundo ele, não foram adicionadas ao monumento até sua segunda fase, por volta de 2.500 a.C., e segundo a lenda possuem propriedades curativas. "Essas pedras são muito especiais", disse o Dr. Darvill. "Talvez seu significado não tenha sido compreendido por completo".
Ele disse que Stonehenge pode originalmente ter sido a "terra dos mortos", como afirma o Dr. Pearson, mas mais tarde transformou-se em uma espécie de Lourdes pré-histórica, para onde as pessoas se dirigiam em busca de cura.  
Espiando o passado
Muito mais coisas existem debaixo da superfície. "Presumimos que os fragmentos que conhecemos são os importantes", disse Vincent Gaffney, da Universidade de Bradford. "O que temos que fazer é descobrir o que realmente existe lá".  
A ideia de utilizar radar de penetração em solo e magnetômetros para espiar dentro do solo sem escavar remonta a décadas.  Em anos recentes, os equipamentos -- principalmente os computadores para analisar os dados -- tornaram-se baratos o suficiente, também em termos de rapidez, para permitir seu uso na arqueologia. 
Arqueólogos concentraram seu foco nos grandes monumentos, porque cavar por todo lado demandaria muito tempo e destruiria a paisagem. Entretanto, o radar de penetração no solo permitiu expandir a investigação sobre o que pode estar escondido no solo no entorno de Stonehenge - (Foto: Geert Verhoeven/ Ludwig Boltzmann Institute)
Medições por indução eletromagnética em Stonehenge - (Foto: The Institution of Engineering and Technology)
Dr. Neubauer colaborou com o Dr. Gaffney para pesquisar uma área de 20,7 km² no entorno de Stonehenge e Durrington Walls. "Foi como um exército atravessando a região", disse o Dr. Gaffney.  Em setembro, eles anunciaram um feito surpreendente: enterradas nas margens ou bancos de Durrington Walls há cerca  de 90 pedras em pé, algumas com até 4,6 m de altura. O Dr. Gaffney disse que pode ter havido originalmente 200 delas, mais do dobro do número existente em Stonehenge. "Isso nos dá ideia da escala disso", disse ele. 
Arqueólogos anunciaram em setembro que as varreduras por radar haviam revelado 90 pedras enterradas em pé em Durrington Walls, uma estrutura circular de terra a cerca de 3,2 km de Stonehenge.  Essa é uma visão estimada por um artista de como poderia ter sido a aparência desse antigo "superhenge" - (Foto: Ludwig Boltzmann Institute)
Se isso for verdade, prejudicará a tese do Dr. Pearson de classificar Durrington Walls como a terra dos vivos e Stonehenge como a terra dos mortos. Mas, ele é cético sobre essas descobertas, que ainda não foram publicadas em uma publicação técnica revisada por outros pesquisadores (pares). 
Dr. Pearson disse que há uma década escavou alguns desses locais e encontrou buracos de postes ou estacas, que foram cobertos por giz com cimento. Os reflexos do radar ricochetearam nos blocos de giz, disse ele. "O "x" da questão é que as pedras na realidade não são pedras", disse o Dr. Pearson. Ele disse que discutiu com Dr. Gaffney sobre as diferenças nas interpretações de ambos. "Cavaremos um buraco no ano que vem [2016] para resolver isso de uma vez por todas", disse ele.
Um lugar de mistério
Ainda não se sabe como a área de Stonehenge se tornou um local venerado. A evidência mais intrigante disso está bem ao lado do próprio Stonehenge: a existência de três grandes buracos de postes ou estacas que continham postes ou estacas de madeira semelhantes a totens. Carvão e ossos nos buracos foram datados entre 8.000 e 7.000 a.C.. "Isso leva a questão de se ter um local especial já reconhecido por um povo muito, muito tempo antes de Stonehenge", disse o Dr. Pearson. "Essa é uma questão que um dia seremos capazes de resolver". 
Esses buracos de postes/estacas são bem mais velhos do que qualquer outra coisa na área, exceto o sítio de Blick Mead e um outro buraco semelhante recentemente datado. 
O D. Jacques disse que os ossos de animais lá existentes -- em sua maioria auroques, os grandes ancestrais do gado de hoje, mas também veados vermelhos e javalis -- datam de 7.500 a.C., coincidindo com os buracos de postes de Stonehenge. A conexão entre eles é especulativa, mas pode ter sido aí onde viveram os construtores dos totens de Stonehenge. 
A fonte de água lá está cheia de ferramentas de quartzo e de ossos descartados. Dr. Jacques pinta Black Mead como talvez um precursor das celebrações de Durrington Walls. Alimentada a partir do subsolo, a fonte nunca congela e pode, também, ter parecido como algo mágico. 
Poucos anos atrás, um voluntário -- a mãe do Dr. Jacques -- tirou da fonte uma rocha de aparência interessante e a colocou em seu bolso. Poucas horas depois, a cor da rocha se tornara um vermelho vivo, uma reação das algas sobre a rocha ao oxigênio do ar. 
A rocha que mudou de cor depois de retirada da fonte de água de Blick Mead - (Foto: Google)
Algas crescem apenas em certas condições parcialmente expostas a sombra, e essas condições podem não ter se alterado muito em 9.500 anos. "Estamos começando a perceber que este é um lugar especial, onde coisas especiais estão acontecendo", disse o Dr. Jacques. 
Ele espera poder expandir as escavações para buscar não apenas por uma casa, mas por um vilarejo.  "Essas pessoas são os primeiros britânicos", disse ele. "Encontramos o berço de Stonehenge". 
Após o término da fase de grande construção de Stonehenge, cerca de 2.400 a.C., o monumento foi modificado, mas a era dos megamonumentos havia terminado. "Essa é a época em que basicamente seu mundo mudou", disse o Dr. Pearson. Novos povos cruzaram o canal vindo da Europa, trazendo bronze e a produção de metais para a cultura da idade da pedra. "É uma  mudança muito interessante", disse ele. "De certo modo, Stonehenge é o canto do cisne".