segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Ecos dos atentados de Paris (I)

Por infeliz coincidência, minha mulher e eu chegamos a Paris na manhã da sexta-feira 13 de novembro, dia em que ocorreram os terríveis atentados na cidade que deixaram 130 mortos e 300 feridos. Por outro lado, tivemos a sorte de nos hospedarmos no 6° distrito (arrondissement), que permaneceu uma ilha de tranquilidade nas duas semanas em que lá estivemos. Ainda nos refazendo do cansaço da viagem, fomos alertados sobre os atentados no próprio dia 13 por mensagens de parentes e amigos no Brasil e passamos a acompanhar os acontecimentos pela TV e pelos jornais franceses.

Ainda profundamente traumatizada pela barbárie do ocorrido, a França permanece absolutamente perturbada, confusa e preocupada com pelo menos dois aspectos: i) a presença, entre os terroristas, de cidadãos franceses nascidos e educados na França; - ii) como e porquê o país permitiu que essas tragédias ocorressem depois dos atentados de janeiro deste ano, em que morreram 12 pessoas na redação do jornal satírico Charlie Hebdo e 4 pessoas num supermercado de produtos para judeus.

A primeira das duas questões acima produz extrema inquietação na França, porque explicita uma enorme falha no sistema de educação  e integração de jovens, em sua esmagadora maioria de origem árabe. A rejeição violenta  dos valores franceses por esses jovens intriga e assusta o país. Esse fato fez ressurgirem velhos fantasmas franceses, que atestam a indiscutível discriminação sofrida por minorias étnicas no país, com destaque para as comunidades de origem árabe. Essa discriminação tem gerado inconformismo e radicalização entre os discriminados, um caldo de cultura perfeito para que grupos terroristas como o Estado Islâmico atraiam jovens desiludidos e inconformados e os transformem em militantes.

Na semana anterior à dos atentados em Paris o canal GNT brasileiro apresentou um documentário impressionante e assustador sobre o forte e insistente trabalho de aliciamento do Estado Islâmico (EI) sobre jovens franceses. A quantidade desses jovens que decide aderir ao EI e se deslocar para a Síria, por exemplo, é mais alta do que se pensa e é angustiante, para dizer o mínimo.

No dia 24 de novembro o jornal francês Le Figaro publicou uma reportagem de uma página sobre Saint-Denis, a cidade-bairro francesa ao norte de Paris com mais de 100 mil habitantes que foi alvo de uma ação policial antiterrorista de uma violência "incrível" (segundo o Le Figaro) dois ou três dias após os atentados de sexta-feira. Nessa incursão policial morreram três terroristas, incluindo Abdelhamid Abaaoud -- de cidadania belgo-marroquina, considerado o mentor dos atentados -- e Hasna Alt Boulahcen, uma francesa de 26 anos que seria sobrinha de Abaaoud e detonou o coletivo explosivo que vestia quando os policiais invadiram o apartamento em que estava com os outros dois terroristas.

A reportagem do Le Figaro mostra que Saint-Denis é um poço de problemas e uma bomba-relógio, "a algumas dezenas de metros da necrópole dos reis da França".  Jovens de 20 anos se cumprimentam com "Salam alaykoum" ("que a paz esteja convosco") em vez de "Bonjour", se vestem com suas roupas tradicionais, cada vez mais meninas e moças usam véus (algumas com vestimentas que só deixam livres os olhos), os restaurantes (incluindo os de fast food) só servem comidas típicas, há salas de ginástica exclusivamente para mulheres, salões de cabeleireiros com salas reservadas para mulheres que usam véu, e outros detalhes que assemelham a cidade-bairro a um gueto.

Um universitário argelino, residente em Saint-Denis há vinte anos, denunciou em uma revista local que a mesquita do Centro Tawhid "é o vetor principal da ideologização  do Islã e do proselitismo concebido pela Irmandade Muçulmana". Um político de direita, Stanislas Francina, diz que se trata de uma "mesquita bastante radical, que se esconde atrás de todos os tipos de ações sociais". Nas livrarias locais pode-se comprar quebra-cabeças para crianças sobre os cinco pilares do islamismo ou posters que lhes ensinam as boas práticas dessa religião: obedecer aos pais, dormir sobre o lado direito, beber em três goles, ... O laicismo do Estado, uma questão de honra para os franceses, praticamente inexiste em Saint-Denis.

Mas, mais do que esse "comunitarismo", o que mais preocupa os habitantes de Saint-Denis é o coquetel de agressões, roubos e tiroteios que domina o centro da cidade. "Há tiroteio quase todas as noites", diz Alain Lenglimé, um artesão aposentado que vive ali há quarenta anos. Isso é tão comum, que os moradores acharam que o tiroteio da polícia quando da invasão do apartamento terrorista era apenas mais um na sua rotina de violências.

Apesar de ter ganho 24.000 habitantes em quinze anos, chegando hoje a 110.000, a cidade não ganhou nenhum policial nesse período. "Se tivéssemos o mesmo índice de policiais por habitante do 18° distrito de Paris, deveríamos ter 500 policiais e não os 300 atuais", afirma Stéphane Peu, "tanto quanto Marselha, temos o maior número de delitos por habitante! Justiça, Educação nacional, polícia -- estamos no vermelho nessas três áreas".  Uma criança em Saint-Denis acumula o equivalente a um ano sem professor na escola primária, por falta de substitutos. "As pessoas se sentem abandonadas pelos poderes públicos, exasperadas pela defasagem entre as palavras sobre o apartheid de Manuel Vals [primeiro-ministro] e os atos".

"As pessoas aqui são pouco producentes. No verão, as crianças ficam nas ruas até às 23h", diz Hawa, uma nativa muçulmana do Mali doutoranda na Universidade Paris-VIII. "Sem projetos, essas pessoas podem se radicalizar porque não têm o que fazer da vida. Elas têm uma lógica quase suicida", se inquieta essa universitária. "O islamismo radical pode parecer-lhes uma solução ...".

Saint-Denis não é um caso isolado na França (digo eu e não o Le Figaro). A partir do que ali acontece, não dá para entender porque tanta perplexidade dos franceses diante da existência de terroristas de nacionalidade francesa.

(cont.)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Assim como no Brasil na década de 80, houve esterilização em massa de mulheres no Peru na década de 90

[Traduzo abaixo a reportagem de Boris Miranda no site BBC Mundo (em espanhol) sobre a violência absurda e inadmissível praticada contra centenas de milhares de mulheres no Peru, esterilizadas à força durante o governo de Alberto Fujimori (1990-2000). A esterilização forçada de mulheres, especialmente nas camadas de baixa renda, já foi objeto de grande polêmica no Brasil nos anos 1990 -- ver, por exemplo, "A Esterilização Feminina no Brasil: Diferenciais por Escolaridade e Renda" (Ignez Helena Oliva Perpétuo e Simone Wajnman, Revista Brasileira de Estudos da População, v. 10, n. 1/2, p. 25-39, 1993) -- motivando uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito em 1993 para examinar a "incidência de esterilização em massa de mulheres no Brasil", que produziu um relatório de 141 páginas que concluiu pela confirmação de esterilização em massa de mulheres no Brasil na década de 80, pela existência de financiamento externo para essa campanha, e pela maior incidência de esterilizações em mulheres da raça negra, entre outras conclusões. Observe-se a subjacência dos períodos de esterilização feminina em massa no Brasil (década de 1980) e no Peru (década de 1990). Parece-me oportuno o tema, no momento em que cresce a reação feminina no Brasil às repetidas, absurdas e inaceitáveis agressões por que passam as mulheres em todas as esferas da sociedade e inclusive em legislações idiotas e inaceitáveis que tramitam no Congress0.]


Esperanza Huayama foi enganada e ameaçada antes que lhe fizessem uma ligadura de trompas contra a sua vontade - (Foto: AFP)

Amarraram os pés e as mãos de Rute Zúñiga para que não pudesse se defender. Três enfermeiras e um médico a esterilizaram sem seu consentimento, depois de chantagens e assédios. Na província de Anta, em Cusco, Peru, as autoridades locais a ameaçavam de não registrar sua filha recém-nascida, se não fosse antes ao centro de saúde. "Assim que fui, me fizeram a ligadura", contou Zuñiga à BBC Mundo. 

Seu caso é semelhante ao de centenas de milhares de outras mulheres no Peru que, entre 1990 e 2000, foram submetidas a tratamentos de anticoncepção cirúrgica definitiva em regiões de níveis de pobreza elevados e maioria de população indígena. 

Desde o sábado, 07/11, o caso das esterilizações forçadas foi elevado a "assunto de interesse nacional do Peru" por um decreto do presidente do país, Ollanta Humala. 

A comissão do Congresso peruano que em 2002 investigou os casos de ligadura de trompas concluiu que 314.605 mulheres foram esterilizadas no marco do Programa Nacional de Planejamento Familiar, do governo de Alberto Fujimori.  O Comitê Latino-Americano e do Caribe dos Direitos da Mulher (Cladem, em espanhol) concluiu que somente 10% das mulheres esterilizadas naquele período deram a isso seu "consentimento genuíno". 

Vítimas como Rute Zuñiga responsabilizam o governo de Alberto Fujimori (1990-2000) por esses atos, algo que sempre foi negado pelo ex-chefe de Estado e por seus familiares.

O inferno

Quando Rute chegou ao posto sanitário e viu mulheres desmaiadas no chão, o primeiro que tentou foi fugir. "Umas enfermeiras foram à minha casa me buscar e me levaram em uma ambulância. No quarto, disse que queria ir ao banheiro, numa tentativa de fugir, mas todas éramos vigiadas. Nos puseram um cadeado para que não fugíssemos. Me levaram minha filha. As mulheres tinham medo e choravam", relatou Zuñiga. Como ela, muitas viveram essa história.

Ativistas de direitos humanos e da mulher reclamam uma reparação histórica para as vítimas das esterilizações forçadas - (No mural da parede, na foto: "Meu corpo, meu território. Nunca mais esterilizações forçadas" - (Foto: BBC)

Em 1996, Esperanza Huamaya foi esterilizada enquanto estava grávida de três meses. Teve que lutar para os médicos não lhe fizessem um aborto nesse momento. "Não vão tirar meu filhinho", lhes disse. Se me tirarem meu filho, prefiro morrer. Depois acordei com muita dor. Não podia esticar-me, estava fraca e encolhida. Meu bebê nasceu fraquinho e até adoeceu", relatou ela. 

Esperanza foi enganada. Ela se lembra de que uma "comissão" chegou a Huancabamba, no noroeste do Peru, oferecendo alimentos, vitaminas e medicamentos para mulheres, mas na realidade se  tratava de um grupo para levar mulheres aos centros de saúde. 

Como com Rute Zuñiga, colocaram Esperanza num quarto, no "inferno". "Fizeram o mesmo com muitas senhoras nesse dia. Com cem pelo menos. Nos trataram como animais, uma vez fechado o posto de saúde. Algumas senhoras morreram, outras foram abandonadas pelos maridos", recorda Esperanza.

Os métodos

Investigações e testemunhos recolhidos por organizações como a Anistia Internacional e a Cladem, pelo Congresso peruano e pelos meios de comunicação enumeram os meios de assédio, ameaça ou chantagem empregados pelo pessoal de saúde da época para praticar ligaduras em mulheres peruanas.  Alguns deles foram:

● Chantagear mães que recém deram à luz, ameaçando-as de não efetuar o registro civil de seus filhos.

● Ameaças de fazer aborto em mulheres grávidas que não aceitassem ser esterilizadas.

● Pressão psicológica com argumentos sobre a irresponsabilidade ou a instabilidade econômica dos maridos, para que as mulheres optassem pela anticoncepção cirúrgica. 

● Visitas de enfermeiras, casa por casa, que ameaçavam voltar "com a polícia" se as mulheres não aceitassem ir ao centro de saúde.

● Festivais e campanhas destinados a convencer as mulheres de que o melhor método de anticoncepção é a ligadura de trompas, em vez de outras formas de planejamento familiar não definitivas.

● Rondas de ambulâncias, casa por casa, para apanhar mulheres.

● Pagamento de "incentivos" econômicos aos maridos para que assinassem uma autorização para que suas mulheres fossem submetidas a uma esterilização "voluntária".

● Oferta de alimentos e medicamentos como instrumentos para atrair mulheres de poucos recursos, ou com necessidades urgentes. 

● Uso da força física para levar as mulheres aos centros de saúde.

Relatos da imprensa da época e o informe do Congresso de 2002 concluíram que nesse período se estabeleceram "metas numéricas" e incentivos, a partir dos altos níveis do Estado peruano, para a prática de esterilizações.

Assunto de interesse nacional

Rute Zuñiga agora é presidente da Associação de Mulheres Afetadas pelas Esterilizações Forçadas, e ainda se lembra daquela tarde há quase 20 anos atrás em que despertou no chão depois da intervenção cirúrgica a que havia sido submetida. "Nós pedimos justiça e reparação. Muitas mulheres ficaram marginalizadas na sociedade, sem possibilidade de trabalhar nem de receber atenção médica desde então", assinala ela para a BBC Mundo. 

Ao mesmo tempo, a deputada Hilaria Supa registra que as vítimas dos programas de esterilização da última década do século XX "devem receber uma reparação do sistema de saúde do Peru". "Elas têm sofrido discriminação nos hospitais desde então e precisam ter acesso a programas de saúde clínica e de saúde mental", destacou a deputada para a BBC Mundo.

A parlamentar explicou que, depois do decreto aprovado no fim de semana, o passo seguinte será a elaboração de uma regulamentação que ponha em marcha instâncias de investigação e de apoio às vítimas. 

O vice-ministro de Direitos Humanos e Acesso à Justiça do Peru, Ernesto Lechuga, assinalou que se se chegar a determinar alguma responsabilidade do Estado isso "terá que ser assumido".  Para tanto, o governo abriu postos em todos os distritos peruanos para cadastrar as pessoas que sofreram intervenções cirúrgicas de anticoncepção forçada.

Zuñiga e Supa comemoram que agora as esterilizações forçadas  da década dos 90 sejam assunto de interesse nacional no Peru, mas essa iniciativa gera também o rechaço de alguns setores da sociedade.

Keiko Fujimori, uma das candidatas favoritas para a futura eleição presidencial do Peru e filha de Alberto Fujimori, assinalou que "há responsabilidades pessoais nos médicos que não respeitaram seus protocolos", e insistiu em que no mandato de seu pai não foram ordenadas esterilizações forçadas. "Aquelas que sofreram danos têm que que receber uma reparação do Estado. Mas, como mulher, creio também que temos o direito a  ter a informação de decidir quando e quantos filhos teremos", concluiu. 

Keiko Fujimori rechaçou que o governo de seu pai tenha ordenado as esterilizações forçadas da década de 90 - (Foto: Getty)

Em 2014, um fiscal não encontrou indícios de culpabilidade de Alberto Fujimori pelas esterilizações, conclusão condenada pelas vítimas e por organizações de direitos humanos e da mulher. 

Para Zuñiga, um dos "primeiros passos" é o fato recente de que o Estado comece a reconhecer a responsabilidade pelo que ocorreu com ela e com centenas de milhares de mulheres. "O mundo tem que conhecer o que se passou, para que isso não ocorra nunca mais".  




domingo, 8 de novembro de 2015

Deixar crianças usar armas de fogo é bom para elas, diz artigo da revista Time

[A paranóia americana quanto à manutenção do direito "inalienável" da posse indiscriminada de armas de fogo, mesmo com a repetição interminável de assassinatos em massa em escolas, igrejas, shoppings, campi de universidades, e onde quer que se reúnam pessoas, foge a qualquer nível de racionalidade. Mais do que um instrumento de defesa pessoal, a arma de fogo transformou-se em um instrumento de poder que permite ao seu usuário decidir sobre a vida alheia que quer manter ou eliminar. No blogue já fiz várias postagens sobre isto: "Inacreditável: treinamento militar para crianças nos EUA" (set°/2015); - "Assassinatos em massa e controle de armas nos EUA -- a cultura da violência" (julho/2015); - "FBI divulga vídeo com cenas do assassino psicopata que invadiu instalações da Marinha em Washington" (set°/2013); - "Obama pede ações sobre porte de arma e reabre debate nos EUA" (dez°/2012); "A Segunda Emenda virou carta branca para matar inocentes nos EUA" (dez°/2012); - "A paranóia do direito à posse de armas nos EUA" (ago/2012). O pior é que o Brasil contribui para essa matança nos EUA: a empresa gaúcha Forjas Taurus tornou-se a quarta maior distribuidora de armas no país da National Rifle Association!

Recentemente, deparei-me com um artigo de Dan Baum, de agosto de 2014, na seção de Opinião da revista americana Time que é simplesmente inacreditável -- usei o título do artigo para esta postagem. Traduzo a seguir esse artigo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Deixar crianças usar armas de fogo é bom para elas

Dan Baum (*) -- Time, 28/8/2014

Treinamento para uso de armas de fogo gera concentração, confiança e responsabilidade


(Foto: kalil9 - Getty Images)


É um momento terrível para dizer isto, logo após uma garota de 9 anos ter matado seu instrutor com uma [pistola-metralhadora] Uzi, mas armas de fogo podem ser excelentes para crianças. 

Obviamente, há tiros e tiros. Entregar uma arma submáquina carregada para uma criança pequena é evidentemente uma loucura [arma submáquina é uma carabina automática refrigerada a ar, alimentada com um pente de balas, projetada para usar cartuchos de pistola]. Infelizmente, Charles Vacca, o instrutor no Arizona, pagou por esse erro com sua vida e infligiu à garota não identificada uma sentença de horror e remorso para o resto de sua vida. Em caso de que alguém pense que as comunidades que defendem os direitos à compra e ao porte de armas estejam defendendo a decisão de Vacca, fique assegurado que elas não assumiram essa posição. Acompanho a blogosfera das armas como parte do meu trabalho, e mesmo os mais entranhados amantes de armas estão horrorizados e furiosos com o que ocorreu. 

[Eis o vídeo do que ocorreu no Arizona, quando uma garota de 9 anos matou sem querer seu instrutor no uso de armas de fogo -- resta saber o que os pais dessa menina almejavam para ela quando a colocaram nessa escola de tiros.]


O que preocupa a comunidade que defende o porte e uso de armas de fogo é que as pessoas confundam essa tragédia com o próprio treinamento de uso de armas de fogo para crianças. Muita coisa acontece em uma boa aula de tiro antes que uma criança ponha a mão em uma arma. A primeira aula geralmente não envolve nada além de exercícios sobre a segurança de armas de fogo. Quando chega a hora de atirar, isso é feito deitado de bruços, por questão de estabilidade, e as armas são de cano longo, de um só tiro, de 22 mm e com o mínimo de recuo ["coice"]. As crianças recebem um cartucho de cada vez, e qualquer desobediência às regras -- a ponta da arma apontando para a direção errada, ou um dedo no gatilho cedo demais -- interrompe toda a aula para que se façam mais exercícios de segurança. Compare isso com com uma criança de 9 anos em pé, sem treinamento, com uma arma completamente automática e com um pente carregado com 32 cartuchos de uma poderosa munição de 9 mm. É a diferença entre comandar uma criança em círculos no dorso de um pônei dócil e deixá-la sozinha, em volta de uma pista, no lombo de um puro-sangue. 

Usar um rifle com precisão exige que as crianças acalmem suas mentes. Alinhar as miras sobre um alvo distante demanda concentração profunda. As crianças precisam desacelerar sua respiração e sintonizar com o batimento de seus corações para serem capazes de apertar o gatilho precisamente no momento certo. Manter um rifle firme e estável exige grandes habilidades motoras, e apertar o gatilho corretamente demanda pequenas habilidades motoras; os dois movimentos feitos simultaneamente envolvem o cérebro todo. Treinamento para uso de arma de fogo é um exercício com alto grau de coordenação entre corpo, mão, olho e mente. É tão distante de diversão eletrônica sem uso da mente quanto se pode imaginar. 

Outras atividades geram também habilidades e concentraçã0 -- tiro com arco, caligrafia, fotografia, pintura -- mas usar armas de fogo por si só é uma categoria, precisamente pela razão destacada pelo acidente da semana passada: isso pode ser mortal.

Uma arma de um só tiro de 22 mm, embora mais fácil de controlar do que uma Uzi, pode matar alguém tanto quanto ela. Então, como tais rifles podem ser apropriados ao uso por crianças? Novamente, o contexto é tudo. Sob instrução adequada, atirar é um ritual. Você faz isso por essa e aquela razão, e você nunca jamais muda o processo porque fazer isso é uma questão de vida e morte. Aprender a reduzir o passo e passar por esses passos essenciais pode ser valioso do ponto de vista de desenvolvimento. O alto perigo envolvido atrai a atenção das crianças, como atrairia a de qualquer outra pessoa. Mas há um benefício adicional em ensinar crianças a atirar: é um gesto de respeito por um grupo [de pessoas] que geralmente não recebe nenhum respeito. [São impressionantes as cambalhotas de raciocínio que o autor dá para "justificar" o ensino do uso de armas de fogo a crianças, algo para mim indefensável e inimaginável.]

Convide uma criança a aprender como atirar e a mensagem será: confio na sua capacidade de ouvir e de aprender. Confio na sua capacidade de concentração. Acolho você numa atividade adulta perigosa porque você é sensata e confiável [Vixe Maria!]. Para pessoas jovens acostumadas a serem inibidas, diminuídas, ignoradas e a receberem um "não", ouvir um adulto chamá-las aos seus mais altos egos pode ser enormemente fortalecedor. Crianças saem de lições de tiro adequadamente ministradas como outras pessoas, com mais estatura e mais dispostos a entrar em sintonia com que os adultos dizem. [Barbaridade!]

Ao viajar pelo país falando a proprietários de armas, encontrei vários deles que me disseram que quando seus filhos ou filhas adolescentes estavam andando "fora dos trilhos"-- bebendo, experimentando drogas e tirando notas baixas -- começaram a levá-los para atirar. A própria natureza contraintuitiva do convite -- dar armas a drogados? -- traziam as crianças de volta ao foco. A chance de fazer algo tão proibido e adulto como atirar venceu suas resistências a passar tempo com o pai ou a mãe. A disciplina e o foco exigidos pelo treinamento no uso de arma de fogo, combinado com sua letal potencialidade, não apenas afastaram esses adolescente de hábitos autodestrutivos como aprofundaram os laços de confiança entre eles e seus pais.  

Novamente, é preciso que se faça da maneira certa. Não se compra um rifle para uma garota e se permite que ela o mantenha em seu quarto; você o mantém trancado e só permite que ela o use sob supervisão. Você não deixa um garoto cru em atirar tocar numa arma até que ele esteja treinado nas regras de segurança. Você nunca permite que pessoas usem armas de fogo que não podem manejar.  Mas, quando feito corretamente, treinamento no uso de arma de fogo pode ser exatamente aquilo de que uma mente e um espírito jovens necessitam. [Sem comentários.]

(*) Dan Baum é um escritor da equipe da revista The New Yorker, e é também um repórter  do The Wall Street Journal, The Asian Wall Street Journal e do The Atlanta Journal-Constitution. É autor de vários livros, dos quais o mais recente é "Gun Guys: A Road Trip" (Os Caras das Armas: Uma Viagem Rodoviária", em tradução livre).


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Cidades históricas de Minas Gerais (I) - Mariana

[Para esta postagem me baseei no livro "Ouro Preto, Mariana, Sabará", da série "Tesouros de Minas", publicado pelo Grupo Autêntica em 2014, assim como na Wikipédia e no Google. As fotos, salvo indicação em contrário, são do Google.]

As três primeiras vilas da "Capitania das Minas do Ouro", Ouro Preto, Mariana e Sabará -- títulos concedidos por Dom João V, rei de Portugal, em 1711 -- abrigam não só um raro e rico acervo de relíquias artísticas do esplendor do Ciclo do Ouro, mas um conjunto arquitetônico expressivo da arquitetura luso-brasileira setecentista. E guardam ainda a memória dos muitos episódios, conquistas e conflitos da sociedade minerária que nascia entre as montanhas de Minas e que terá influência e presença na História de Minas Gerais e do Brasil. (...)

MARIANA


Vista parcial de Mariana

A histórica e cívica Mariana nasce em 1696, quando chega às margens do Ribeirão do Carmo o bandeirante Salvador Fernandes Furtado. Um dos núcleos civilizatórios mais férteis de Minas, Mariana ostenta os títulos de "Cidade Primaz de Minas", de "Cidade dos Bispos"e de "Roma Brasileira". Seus pioneirismos na formação histórica e cívica de Minas Gerais são muitos: primeira capital (1709 a 1720), primeira Vila (1711), primeira Câmara Municipal, primeira a receber o título de "cidade" (1745), primeiro Bispado (1745) da "Capitania das Minas Geraes", primeiro Arcebispado (1908) entre muitos outros. Mariana propicia um mergulho na História do Brasil e de Minas, na contemplação e convivência com monumentos, entre edificações civis e religiosas, exemplares da arquitetura colonial luso-brasileira e que abrigam obras de ornamentação, esculturas, pinturas e mobiliário, originários dos séculos XVIII e XIX, resultante do esplendor artístico do Ciclo do Ouro e produzidos sob a inspiração do barroco português e suas expressões singulares criadas pelos artistas marianenses. 

Nasceu como Arraial do Ribeirão de N. S. do Carmo, mas recebeu o nome da esposa de Dom João V, Maria Ana d'Áustria em 1745, quando obteve o título de "cidade". Já em 1709, a primitiva capela erguida para a fundação do arraial minerador é transferida para a recém-construída Igreja de N. S. da Conceição (hoje Igreja Catedral da Sé). O governo português encomenda, em 1745, ao engenheiro militar José Fernandes Alpoim um traçado geométrico para o seu núcleo urbano -- outro pioneirismo de Mariana, que a distingue das outras cidades históricas mineiras. 

Mariana conserva um dos conjuntos arquitetônicos luso-brasileiros mais expressivos de toda a tecnologia construtiva portuguesa transplantada para o Brasil. Guarda acervo valioso e raro da arte sacra e especialmente trabalhos de talha. Seu casario, formado nos primeiros anos do século XVIII, expande-se para um segundo pavimento, especialmente na Rua Direita e na Praça Gomes Freire, que abrigam conjuntos excepcionais do patrimônio histórico e urbanístico brasileiro setecentista.

Recebe em 1945 o título de "Monumento Nacional"por seu "significativo patrimônio histórico, religioso e cultural"e ativa participação na vida cívica e política do país, contribuindo em vários episódios da Independência, do Império e da República, para a formação brasileira. Todo ano, em 16 de julho, "Dia de Minas", o Governo do Estado se transfere para Mariana e realiza cerimônia alusiva na Praça Minas Gerais que, por sua beleza plástica e seus monumentos, é significativo exemplo da Minas Colonial. 



Catedral Basílica da Sé (Nossa Senhora da Assunção)As obras do templo atual começaram em 1711, ano em que o governador Antônio de Albuquerque elevou o arraial à categoria de vila. Com isso, a igreja recebeu o título de matriz consagrada a Nossa Senhora da Conceição. Uma primeira ampliação ocorreu entre 1713 e 1718, encarregada ao mestre Jacinto Barbosa Lopes, que reaproveitou a estrutura existente e a transformou em sacristia. Em 1734 o edifício já estava bastante estragado, iniciando novas obras na fachada e erguendo-se as torres sob a responsabilidade do mestre Antônio Coelho Fonseca. Apenas em 1798 é que as paredes externas foram reconstruídas em pedra e cal. Em 1727 foram concluídas as obras de talha e douramento do ouro do altar-mor, com execução de José Martins e Manuel de Sousa e Silva, e os altares laterais foram construídos entre 1744 e 1751 por José Coelho Noronha. Em 1745, com a criação da Diocese de Mariana, a matriz foi elevada a catedral dedicada a Nossa Senhora da Assunção.

Apesar da fachada modesta, é uma das igrejas mais ricas do Brasil, com lustres de cristal da Boêmia (atual República Tcheca) e onze altares ricamente ornados - dois são de Francisco Xavier de Brito, mestre de Aleijadinho. Próximo à entrada, o batistério guarda uma bela pintura de Mestre Athaíde representando o batismo de Cristo. O órgão alemão de 1701 é tocado às sextas (11h30) e domingos (12h15). O pai de Aleijadinho, Manuel Francisco Lisboa, construiu a varanda que abriga o órgão Arp Schnitger, um dos únicos instrumentos fabricados por esse importante construtor de órgãos alemão ainda existente fora da Europa. 

O altar-mor da Basílica da Sé de Mariana


Retábulo-mor da Basílica da Sé de Mariana


Altar lateral da Basílica






Detalhes da nave central

Pintura do teto da Basílica


Detalhe do tapa-vento da Basílica


Órgão Arp Schnitger, da Basílica da Sé de Mariana


Outra vista do órgão Arp Schnitger


Museu Arquidiocesano de Arte Sacra






São Joaquim, primeiros anos do século XIX, madeira (cedro) dourada policromada. Obra de Antônio Francisco Lisboa, dito o Aleijadinho (1738-1814). 


Santa Luzia, madeira dourada policromada. Obra de Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho) - (Foto: TripAdvisor)


Nossa Senhora dos Anjos. Madeira policromada dourada. Obra proveniente da igreja paroquial de Santa Bárbara (MG), feita por Francisco Xavier de Brito (? - 1751)


Santana Mestra, patrona dos moedeiros -- Autor: Elias Layon


Obra e autor não identificados


Museu Arquidiocesano de Arte Sacra (fotos acima)-- Prédio do século XVIII, um dos principais museus do gênero no país, abriga obras de Aleijadinho e de Francisco Xavier de Brito e objetos de ouro e prata.





Praça Minas Gerais , com as igrejas de São Francisco de Assis (à esquerda) e do Carmo (centro), e a Câmara Municipal e Cadeia à direita (segunda foto acima). No centro da praça (primeira foto acima) vê-se o pelourinho, onde se castigavam escravos


Câmara Municipal e Cadeia de Mariana, é a mais antiga do estado. Seu projeto é de José Pereira dos Santos, e funcionou como senzala e casa de fundição de ouro. Fica situada na Praça Minas Gerais, onde estão as igrejas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo (foto anterior)


Altar-mor, tipicamente rococó, terceira fase do Barroco Mineiro, Igreja de S. Francisco de Assis




Igreja de São Francisco de Assis. A Igreja de São Francisco de Assis, é construída em estilo rococó, que constitui uma etapa posterior, na evolução do barroco mineiro. Sua construção teve início em 1763, com projeto arquiteônico, risco da portada e elementos ornamentais como púlpitos, retábulo-mor, lavabo e teto da capela-mor da lavra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e pinturas de Manuel da Costa Ataíde. Os dois artistas, nascidos respectivamente em Vila Rica (hoje Ouro Preto), e Vila do Carmo (hoje Mariana) são considerados os dois mais importantes nomes da arte colonial brasileira. À época que a igreja foi construída, Mariana vivia o ápice da sua história, por isso a magnitude da construção em diversos sentidos (tamanho, detalhamento, peças de ouro). A construção é um marco religioso, social, artístico da cidade e do estado. Está localizada na Praça Minas Gerais, e nela  encontra-se o túmulo do pintor Manoel da Costa Ataíde. 


Vista da nave

Igreja de N. S. do CarmoDepois de se alojar na primitiva Capela de Nossa Senhora do Carmo (atual Capela Santo Antônio) e na Capela São Gonçalo (hoje inexistente), a Ordem Terceira do Carmo obteve permissão por carta régia, datada de 1784, para erguer seu templo definitivo. As obras iniciaram em 1784, tendo como encarregado o mestre pedreiro português Domingos Moreira de Oliveira, cujos sucessores terminaram o templo em 1835. Para o reconhecido historiador e crítico de arte Germain Bazin, é um dos mais belos templos rococó de Minas.

Embora tenha planta retangular, com capela única, apresenta traços de originalidade: as torres cilíndricas, modelo recentemente introduzido em Minas, são implantadas em recuo em relação à fachada. A capela-mor tem forro abobadado, com uma rosácea de arremate. O altar-mor tem refinada talha dourada rococó, com projeto do padre Félix Antônio Lisboa, meio‐irmão de Aleijadinho, e erguido entre 1797 e 1819, mas só recebeu o dourado em 1826 por Francisco Xavier Carneiro. Sua também era a grande pintura que decorava o forro da nave, perdida em um incêndio em 1999, quando a igreja estava sendo restaurada, ocasião em que foram perdidos também os dois altares do arco cruzeiro. Depois eles foram reconstruídos de maneira esquemática, para assinalar sua antiga presença e receber estatuária devocional. Restos carbonizados dos altares foram preservados e estão em exposição.


Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, Mariana (MG) --(Foto: Facebook)

Chafariz próximo à Igreja de São Pedro dos Clérigos, Mariana (MG) - (Foto: Facebook)

Rua Direita (Mariana, MG), com seus sobrados do século XVIII - (Foto: Facebook)






Detalhe do forro da capela-mor
Fachada e interior da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Mariana, MG) 


Igreja Matriz de São Caetano


Interior da igreja, com vista do altar-mor

Localizada em Monsenhor Horta, distrito de Mariana, foi construída em 1752. A fachada da Matriz segue o tipo tradicional, de portada e duas janelas rasgadas ao nível do coro. No inteiro, a capela-mor é guarnecida com obra de talha do mais antigo barroco mineiro. O efeito geral é de grande riqueza, inclusive a talha frontal do altar (foto abaixo).





Detalhes do interior da Igreja Matriz de São Caetano, em Monsenhor Horta, distrito de Mariana (MG), fotos acima.

Casa da Cultura (Mariana, MG)



















domingo, 1 de novembro de 2015

A verdade sem rodeios sobre a ocupação da Palestina por Israel, na opinião de judeus

[O artigo traduzido a seguir, da autoria de Carlo Strenger (*), foi publicado no prestigioso jornal israelense Haaretz (O País). O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. A atuação de Israel na Palestina tem lhe rendido dividendos amargos no cenário internacional, sem que isso infelizmente tenha provocado qualquer alteração no estilo violento implacável e absolutamente agressivo a direitos humanos com que Israel domina os territórios que ocupa na Palestina. Ver: "Jerusalém, a capital do apartheid, à espera da insurreição"; -- "Onda de boicotes está levando Israel ao isolamento internacional"; -- "Acadêmicos britânicos anunciam boicote a Israel". ]

Yeshayahu Leibowitz acertou ainda antes de 1967, quando alertou que Israel rumava para um perigoso declive moral.


Ocupação: Mulher palestina com crianças cruza um bloqueio rodoviário de controle, enquanto soldados israelenses esperam, no cruzamento Qalandiya entre Jerusalém Oriental e a cidade de Ramallah, na Margem Esquerda - (Foto: AP)

Hoje, quando os ministros do governo de Israel tentam levar vantagem uns sobre os outros exprimindo as frases mais beligerantes e chauvinistas que podem encontrar, penso muito sobre Yeshayahu Leibowitz e sua clareza moral. Um ascético homem da Renascença com uma gama realmente incrível de conhecimento, ele assumiu a personalidade de um profeta da ira. Já após o massacre de Qibya em 1953, quando tropas lideradas por Ariel Sharon mataram pelo menos 69 aldeões palestinos num ataque de represália, Leibowitz começou a alertar que o país rumava para um perigoso declive moral.

Imediatamente após a Guerra dos Seis Dias, ele alertou sobre as horríveis consequência da ocupação de milhões de palestinos; de construir uma rede de informantes que atuariam contra seu próprio povo; do impacto que atuar militarmente nos territórios teria sobre soldados jovens, e o impacto que o controle dos territórios teria sobre a sociedade israelense como um todo.  

Revendo o documentário de Dror Moreh The Gatekeepers [Os Guardiães das Passagens, em tradução livre], você percebe quão certo foi Leibowitz. Os seis ex-chefes do serviço de segurança Shin Bet, que foram extensivamente entrevistados por Moreh no filme, falaram principalmente sobre o custo moral da ocupação e porque Israel precisa encerrá-la, para o próprio bem e interesses do país. Eles não são pacifistas ingênuos. Fizeram o que tinha de ser feito para reforçar a segurança e a salvaguarda de Israel, mas enquanto o fizeram jamais perderam de vista a moralidade.

De fato, os serviços de segurança de Israel vêm alertando há anos que a atual onda de violência seria inevitável se Israel não provesse os palestinos com um horizonte político. Eles conhecem a realidade diária da ocupação, e nem por um minuto acham que o denominado status quo de anexação progressiva [de territórios] e humilhação constante seja sustentável -- e muitos deles, falando em off, admitem estar horrorizados com o preço moral da ocupação.

É exatamente essa dimensão moral que está se perdendo no discurso público israelense, que está atingindo níveis orwellianos de distorção linguística ["orwelliano" refere-se à situação, idéia ou condição social que George Orwell identificou como sendo destrutiva para o bem-estar de uma sociedade livre e aberta]. A distorção da verdade por Netanyahu até com relação ao Holocausto, apenas para ganhar pontos políticos com sua ridícula teoria de que o Mufti [um acadêmico islâmico a quem é reconhecida a capacidade de interpretar a Sharia (lei islâmica) e emitir conselhos (fatwas)]  inventou a Solução Final [ver aqui], é o exemplo mais recente disso. 

Yeshayahu Leibowitz, um homem de clareza moral - (Foto: Alex Levac)

Estou escrevendo isto, embora haja ataques diários contra vidas israelenses, porque Leibowitz nunca disse que Israel tinha que encerrar a ocupação para alcançar a paz. Ele era um pessimista em relação à natureza humana, e provavelmente não se surpreenderia com o caos violento que engolfa o Oriente Médio. Ele disse que precisávamos terminar com a ocupação porque era imoral; porque controlar milhões de pessoas sem lhes garantir direitos políticos é moralmente insustentável e corrompe a sociedade que perpetua essa situação. 

Compartilho o pessimismo de Leibowitz quanto à natureza humana, e sou também muito pessimista quanto ao futuro visível do Oriente Médio, que tende a ser caótico e violento independentemente das ações de Israel [aqui o autor, sintomaticamente, aliviou a aceleração que vinha mantendo]. Também não sei quando um acordo final poderá ser alcançado com os palestinos, porque eles parecem incapazes de construir uma liderança coerente e unificada.

Mas a realidade vigente de privação de posse e de humilhação [sobre os palestinos] pode e tem que ser encerrada com passos intermediários. Israel pode desmontar os assentamentos menores, que tornam miseráveis as vidas dos palestinos. Ele poderia fazer reagrupamentos de um modo que possibilitaria que 98% dos palestinos vivessem suas vidas livremente, sem contato com as forças de defesa israelenses -- e isso pode ser feito sem comprometer os requisitos vitais de segurança de Israel. E poderíamos terminar com as tentativas diárias de intrusões direitistas em Jerusalém Oriental. Os detalhes de como exatamente fazer isso foram elaborados pelo ex-Chefe de Staff e ex-ministro da Defesa Shaul Mofaz em um plano de 2011, que nunca passou por uma audiência pública.

Mas para isso precisamos de políticos que estejam dispostos para, e sejam capazes de, usar a linguagem da moralidade e dizer aos israelenses que a única maneira de salvar o país de uma desintegração interna é assumir os riscos envolvidos em nos desengajarmos dos palestinos, ainda que não possamos saber se isso trará paz. Eles precisam apenas dizer a simples verdade: que mesmo na política há a moral virtuosa e a moral diabólica, e que ocupar e controlar outro povo é diabólico. 

(*) Carlo Strenger é professor de Filosofia e Psicologia na Universidade de Tel Aviv. Atua no Painel de Monitoramento Permanente do Terrorismo da Federação Mundial de Cientistas, no Seminário de Psicanálise Existencial em Zurique e no Conselho Científico da Fundação Sigmund Freud, em Viena. É autor de inúmeros livros, incluindo "O medo da insignificância: em busca do significado no século 21".