quarta-feira, 17 de junho de 2015

O macabro negócio da venda de cadáveres para uso da ciência nos Estados Unidos

[A reportagem traduzida abaixo foi publicada pelo site em espanhol BBC Mundo. Há de tudo neste mundo.]


As empresas conseguem entre US$ 2.000 e US$ 3.000 por cada corpo - (Foto: Thinkstock)

Quando os cadáveres de criminosos executados não eram suficientes para as pesquisas dos anatomistas dos EUA, eles roubavam outros. 

Ou melhor, pagavam a alguém para que os roubasse -- esse ladrões eram conhecidos como "homens de ressurreição". Isso ocorreu ao longo dos séculos XVIII e XIX, e ainda que agora não seja assim os estudantes e pesquisadores continuam precisando de cadáveres.

A principal fonte de suprimento desses cadáveres hoje são as doações daqueles que desejam que seus corpos contribuam para a ciência. Isso foi suficiente para as necessidades da medicina até há pouco tempo. Mas, os programas universitários de medicina estão crescendo, e ele não são os únicos que querem corpos inteiros ou membros.

Empresas privadas de pesquisas médicas, firmas que fabricam equipamentos médicos e centros de formação cirúrgica necessitam de órgãos e tecidos humanos. Esta demanda fez surgir uma nova indústria nos EUA, a de compra e venda de cadáveres ou de partes do corpo.  

Uma equipe da BBC investigou o assunto.

O negócio dos cadáveres

Os repórteres Galen Koch, Peter Lang-Stangton e Nick Farago descobriram que no setor há mais de 20 dessas empresas nos EUA. E que, apesar de tratar-se de um negócio estranho, essas empresas são legais. 

Através do documentário de rádio "The resurrection men" (Os homens da ressurreição), transmitido pelo serviço mundial da BBC, eles explicaram como isso funciona.

Os repórteres visitaram uma delas, chamada Research for life (Pesquisa para a vida), localizada em uma zona industrial Phoenix, Arizona. O gerente da empresa, Garland Shreves, explicou-lhes que se trata de um negócio familiar: ali trabalham 40 pessoas, entre elas sua mulher e seus filhos. Segundo os jornalistas o prédio da empresa é elegante, com escritórios "normais".


Os corpos são doados. Muitos escolhem esta opção para evitar os custos do enterro ou de uma cremação(Foto: Thinkstock)

Os jornalistas descrevem Shreves como um homem sorridente e agradável, de 50 e tantos anos, que dirige uma picape vermelha e é piadista. O empresário lhes contou que trabalhou em funerária durante 36 anos, antes de começar esse novo empreendimento. "A alguns não lhes agrada que nos chamem de banco de tecidos. A realidade é que se você vai a um banco normal, o que espera encontrar ali? Dinheiro. Portanto, se for a um banco de tecidos encontrará tecidos", diz. 

Os órgãos e tecidos que a empresa de Schreves vende não são para transplantes. São usados por profissionais médicos e pesquisadores, não apenas em universidade mas também em outros centros de pesquisas científicas. Schreves assegura que todos os corpos que recebe foram entregues voluntariamente. "As pessoas tomam a decisão de doar seus corpos, não os forçamos, ninguém rouba um cadáver da sepultura", garante ele.  Schreves informa que no momento tem cerca de 80 cadáveres.  

Como trabalham

Depois de recolhido de sua casa ou do lugar onde morreu, o corpo doado é colocado em uma geladeira específica para isso. Logo em seguida, faz-se nele uma série de exames de sangue (HIV, hepatite, tuberculose), e uma avaliação física para verificar suas condições e que partes podem ser vendidas. 


Os corpos são congelados e logo em seguida examinados meticulosamente - (Foto: Thinkstock)

Há muitas opções, se pode vender o corpo inteiro ou algum membro em particular. Às vezes se solicitam corpos de certa idade ou que não tenham sofrido operações cirúrgicas, explica Schreves. A partir dos exames, se faz um plano para determinar o que vai ser extraído do cadáver.

Os preços das partes dos corpos variam muito. Uma cabeça congelada custa US$ 500, um pé US$ 200, um torso de US$ 1.500 a US$ 1.800, um joelho US$ 300 e uma mão US$ 125. Schreves disse que um corpo completo é vendido desde US$ 2.000 a US$ 3.000.

Apesar de nos EUA ser ilegal a venda de partes do corpo, empresas como a de Schreves encontraram a maneira de fazer negócios de forma legal: cobram não pelo corpo em si, mas pelo serviço de fornecê-lo. As partes do cadáver que não são vendidas são cremadas, e as cinzas são entregues à família do defunto.

Segundo o documentário da BBC, muitas famílias optam por doar o corpo para evitar os custos da cremação, que podem chegar a US$ 2.000.

Arizona

Os repórteres da BBC contactaram outra empresa do mesmo ramo, a United Tissue Network, também localizada no Arizona. A diretora de comunicação da empresa, Kayla Hrabak, lhes informou que a maioria das empresas do setor está concentrada na cidade de Phoenix. O motivo é que a região é muito popular para aposentadorias, razão pela qual possui um alto número de velhos.

Uma moradora da cidade contou a razão porque decidiu entregar seu corpo à empresa após sua morte. "Doei meu corpo para que meus filhos não tenham que se preocupar comigo", explicou. "Quando eu morrer, meus filhos têm apenas que chamar a United Tissue Network", acrescentou. "Sempre quis doar meu corpo à ciência, e que façam com ele o que queiram".

O documentário The resurrection men pode ser ouvido em inglês aqui


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