sábado, 2 de novembro de 2013

Barack Obama: "Eu escuto o que você diz, Angela".

[Os jornais europeus estão encharcados de bílis contra os EUA por conta das novas informações sobre escutas da NSA de conversas telefônicas de cidadão, líderes e políticos europeus, incluindo o celular da chanceler alemã Angela Merkel. Os americanos afirmam que parte das informações coletadas foi fornecida à NSA pelos serviços de inteligência dos próprios países afetados.  No meio desse tiroteio, quem ficou mal e contra a parede foi o presidente Barack Obama -- baixou nele o espírito do NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) e ele declarou que não sabia de muita coisa que estava acontecendo, o que tem lhe custado severas críticas até de seu próprio partido e da imprensa, principalmente do International New York Times.  A melhor crítica sobre a escuta do celular de Merkel e o "tem muita coisa de que não sei" de Obama veio -- como não podia deixar de ser -- da imprensa inglesa, com o fino humor britânico, na coluna "Notebook" de Robert Shrimsley, no Financial Times do dia 30/10, que traduzo a seguir tentando manter o espírito do texto original. De quebra, o autor toca também no tremendo fiasco do site do Obamacare, que custou US$ 500 milhões e simplesmente não só não funcionou, como gerou confusão para os usuários. Virar um NPA é uma desgraça para qualquer um, mas pesa mais para o presidente da nação mais poderosa do planeta. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Obama: "Eu escuto o que você diz, Angela"

Robert Shrimsley - Financial Times, 30/10/2013 - pág. 8

Angela Merkel falou com Barack Obama para deixar registrada sua fúria em relação às informações de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA monitorava suas ligações telefônicas.

Barack Obama (BO): Angela, é um prazer receber sua ligação. Como vão indo as negociações sobre a coalizão?

Angela Merkel (AM): Pelo que entendi, Sr. Presidente, o Sr. tem ouvido bastante minha voz ao longo dos anos.

BO: Angela, isso simplesmente não é verdade. Nunca escutei suas ligações telefônicas.

AM: Estou aliviada ao saber disso.

BO: Recebo apenas um resumo do serviço de inteligência, que se baseia nas transcrições das ligações.

AM: Talvez então eu devesse perguntar-lhe como andam as negociações sobre a coalizão.

BO: Não estamos fazendo escuta dos Sociais Democratas - e, mesmo se estivéssemos, não poderia contar-lhe nada do que disseram. Seria uma quebra de confiança. Nossos aliados precisam saber que podem contar com a nossa discrição quando fazemos escuta de suas ligações.  

AM: Mas isso é uma quebra de confiança grave. 

BO: Bem, Angela, eu não sabia que estávamos espionando você. Ninguém me conta nada por aqui. Estava ouvindo meu porta-voz da imprensa um dia desses e até ele me pareceu não estar certo se eu sabia ou não.

AM: Talvez alguém devesse gravar suas ligações, Sr. Presidente.

BO: Mas, tenho que lhe dizer uma coisa Angela -- você não devia realmente usar esse tipo inseguro de equipamento de telecomunicações.

AM: O que o Sr. quer dizer com isso? Eu uso o Trabant 4S com 2G. Erich Honecker [político alemão que governou a Alemanha Oriental de 1976 a 1989] confiava nos telefones Trabant -- ele dizia que eles estavam ruas à frente de qualquer coisa do lado ocidental [Trabant foi um automóvel produzido pela Alemanha Oriental de 1957 a 1991, que virou sinônimo de obsolescência].

BO: Sim, mas, bem, as coisas avançaram. François Hollande usa o novo iPhone 5S e não conseguimos nos aproximar dele.  Temos que perguntar ao Siri o que ele anda fazendo -- mas, aparentemente, ele só o consulta sobre política fiscal.

AM: Mas, Sr. Presidente, lembre-se de que fui criada num país que escutava as ligações telefônicas das pessoas.

BO: Certo, você veio de um regime comunista que espionava seus próprios cidadãos. Acho que é por isso que quisemos saber mais sobre você. 

AM: O Sr. acha?

BO: Bem, essa é a NSA de que estamos falando. Não tenho permissão de acesso a esse tipo de informação. Mas, veja, determinei que se fizesse um exame completo de nossas atividades de inteligência para descobrir o que eu sabia, quando eu o soube e o que poderia querer saber no futuro. Consequentemente, Angela, posso garantir-lhe que se fizermos isso outra vez eu definitivamente estarei ciente.

AM: Essa não é exatamente a garantia que desejava, Sr. Presidente. Deixe-me dizer-lhe uma coisa, muitos de seus amigos estão muito revoltados com isso. Estava conversando com Dilma Rousseff sobre isso ...

BO: É, eu sei. Hum, o que quero dizer é que imagino o que você teria feito.

AM: E não consigo entender porque o Sr. trata um amigo como um inimigo. 

BO: Bem, Angela. Posso garantir-lhe que não vemos a Alemanha e você mesma  como nada mais do que um amigo íntimo e confiável. Mas, amigos íntimos cuidam uns dos outros. Não estávamos espionando você como um inimigo, mas sim como um amigo do peito: verificando se você não está se envolvendo em problemas, se misturando com as pessoas erradas, planejando invadir a Polônia.  Isso é vigilância carinhosa.

AM: Mas o Sr. não espiona David Cameron.

BO: Não, não o espionamos e você deveria ver isso como um elogio, Angela. 

AM: Achei que isso se devia a acertos de inteligência entre os Srs. 

BO: Verdade? Ninguém me diz nada aqui. Outro dia, estava tentando comprar algum seguro médico e o site nem sequer funcionava. Ninguém me havia dito isso, e se o disseram me esqueci. Falando sério, as coisas acontecem por aqui e a gente não tem nem ideia disso. Você soube que faltaram poucos dias para que rompêssemos o teto da dívida pública?

AM: Bem, dizem que se de fato você quer que algo se faça você mesmo terá que fazê-lo.

BO: Eles dizem isso? Ninguém me conta nada aqui. Mas, sejamos adultos nessa história. Agências europeias [de inteligência] nos ajudaram com a coleta desse material. Com líderes como esses, não há porquê se surpreender com o fato de grampearmos suas ligações.  Mas, não precisa se preocupar com isso -- não temos gente suficiente para checar tudo o que recebemos. A maior parte disso está simplesmente armazenada em discos num sótão em Maryland. O mais importante, Angela, é que caminhamos para assumir o controle disso. Oh, Angela, uma última coisa.

AM: Sim? 

BO: Como era mesmo o nome daquela casa de campo na Floresta Negra sobre a qual você conversava outro dia? Michelle sempre quis conhecê-la.



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