quinta-feira, 26 de julho de 2012

Petrobras ameaça levar a Eletrobras à Justiça

[Sem sequer ter chegado à exata metade de seu mandato, nossa ex-guerrilheira e ex-quase-Dama de Ferro -- a ferrugem política e gerencial a atacou mais cedo do que se esperava, reforçada por seu jeito carinhoso de ser e comandar -- Dilma Rousseff vive seu inferno astral. Além das inúmeras greves que atingem praticamente todas as áreas chaves da administração federal -- com destaque negativo para a paralização dos professores das universidades federais, que vai completar um trimestre e já jogou no ralo o ano acadêmico de 2012 (num país em que a falta de educação, lato sensu, é uma eterna mazela), surge agora a história de que nossas duas principais estatais podem se enfrentar nas barras de um tribunal. O episódio revela, até prova em contrário, um problema de gestão (mais um?...) da Eletrobras e/ou mais um descompasso entre a empresa e a Aneel, e evidencia por mais um ângulo que o ambiente na administração federal, direta ou indireta, está longe de ser harmonioso. 

Quem conhece o setor energético brasileiro sabe que Eletrobras e Petrobras são dois bicudos que não se beijam já há algum tempo, e nesse acervo um tanto litigioso está, entre outras, a velha e polêmica história da disponibilização do gás de Urucu (Amazonas) para suprimento elétrico regional, que a Petrobras emprenhou e empurrou com a barriga durante anos e prejudicou tremendamente a Eletrobras e o país no planejamento do atendimento elétrico à região.

Reproduzo a seguir a reportagem de hoje do Valor Econômico sobre o assunto.]

Uma dívida de R$ 2,4 bilhões entre as duas maiores estatais brasileiras pode parar na Justiça. A Petrobras decidiu dar fim ao calote que a BR Distribuidora está recebendo da Amazonas Energia, controlada pela Eletrobras, já que desde 2009 a distribuidora da petroleira não recebe por todo o óleo combustível e diesel consumidos pelas termelétricas que operam no Norte do país. A dívida corresponde a quase duas vezes o lucro da BR no ano passado, que foi de R$ 1,267 bilhão.  Em dólares, o valor da dívida soma US$ 1,18 bilhão, o que permitiria pagar, com sobra, uma das modernas sondas de perfuração em águas ultraprofundas que serão construídas no Brasil ao custo aproximado de US$ 1 bilhão. "Na prática, é uma tentativa de transferir uma ineficiência do setor elétrico para a Petrobras", afirma um executivo da BR.

A origem do problema, sob o ponto de vista da Eletrobras, é uma divergência de interpretação entre a concessionária de energia e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) com relação às regulamentações da Lei 12.111, de julho de 2009, relacionadas às despesas cobertas pela bilionária Conta de Consumo de Combustíveis (CCC).  "Esse é um problema gerado pela regulamentação de uma legislação que não está conseguindo dar o devido equilíbrio econômico à concessão", afirma Marcos Aurélio Madureira da Silva, diretor de Distribuição da Eletrobras e presidente de todas as distribuidoras controladas pela estatal de energia.

O diretor da Eletrobras faz questão de frisar que o que chama de déficit não é gerado por inoperância ou por problemas de gestão da Amazonas Energia. "Ele [déficit] está sendo gerado por uma divergência quanto aos critérios de cobertura dos custos de geração do sistema isolado", afirma, admitindo contudo que a Petrobras não tem nada a ver com o assunto, a não ser o fato de ser também uma estatal.  A Eletrobras já acertou com a BR o parcelamento de uma parte da dívida, no valor de R$ 725 milhões, o que agora terá de ser aprovado pelo conselho de administração. Quanto aos R$ 1,6 bilhão restantes, que ainda não incluem correção, Madureira diz que precisa se entender com a Aneel antes de pagar.

Vendo esgotadas as possibilidades de receber pela via da negociação, a Petrobras resolveu agir. Em uma carta para a Eletrobras, a distribuidora de combustíveis informou que vai passar a exigir garantias da controladora nas vendas de combustível para a Amazonas Energia. "Sem a garantia, só vamos entregar combustível com pagamento prévio", informou uma fonte qualificada ao Valor

Durante muitos anos, a Petrobras se transformou em uma espécie de fiadora indireta da estatal de energia, antecipando pagamentos para a BR pelo óleo vendido para geração no Amazonas de modo que a distribuidora não tivesse que carregar esse atraso nos pagamentos em seus balanços. Mas em 2009, depois da Lei 12.111, a situação se agravou e a dívida aumentou. Em maio de 2011, a Petrobras decidiu não mais esconder o problema, deixando de compensar a dívida internamente. Era claro que o rombo era muito grande para suportar e o impacto no caixa da distribuidora foi relevante.  "Esse número é muito significativo para a BR. Sabemos da nossa responsabilidade social e das consequências se pararmos o fornecimento de combustível para a região. Mas não podemos mais ficar de braços atados", desabafou uma fonte da distribuidora de combustíveis.

O Valor conversou com executivos da Petrobras e da BR sobre o assunto, mas dado o constrangimento que suscita, todos pediram para não terem seus nomes divulgados. Explica-se: as duas estatais estão submetidas ao Ministério de Minas e Energia, sendo que o secretário executivo do MME, Márcio Zimmermann, é membro do conselho de administração de uma e preside o conselho da outra. Em março, o assunto foi levado ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente dos conselho de administração da Petrobras e do conselho da distribuidora de combustíveis. Mantega deu sinal verde para a cobrança judicial.

Apontada como estopim, a Lei 12.111 permitiu, por exemplo, que despesas com operação e manutenção de equipamentos também fossem deduzidos da conta de combustíveis. A CCC é um encargo setorial pago por todos os brasileiros na conta de luz para subsidiar a geração de energia no Norte do país, que não está conectado ao Sistema Interligado Nacional (SIN) de distribuição. As geradoras que operam no chamado Sistema Isolado têm direito a subsídio para pagamento das despesas com a compra de combustíveis fósseis para a geração de energia elétrica, que custam mais caro.

Em 2012, o orçamento da CCC é de R$ 3,2 bilhões. Em 2011, chegou a R$ 5,85 bilhões e, em 2010, de R$ 4,757 bilhões. Administradora da CCC, a Eletrobras está sob pressão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que vem cobrando mais eficiência na gestão do parque gerador na região. Em 2007 a Aneel multou em R$ 11,9 milhões a Eletrobras por má gestão dos recursos arrecadados pela CCC. Apontada pela Eletrobras como responsável pelo problema, a Aneel não respondeu aos pedidos de entrevista. A assessoria de Zimmermann, no MME, também disse que não iria comentar o assunto.


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